Sair
Assine
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Murilo Góes

O paladar infantil cresceu e já virou um rapaz

Alimentado por uma lógica criada por adultos, essa criatura de Frankenstein já veio ao mundo fadado à Síndrome de Peter Pan

Publicado em 14 de Agosto de 2024 às 10:00

Publicado em 

14 ago 2024 às 10:00
Murilo Góes

Colunista

Murilo Góes

O paladar infantil cresceu e já virou um rapaz
O paladar infantil cresceu e já virou um rapaz com certo medo de se tornar aquele tiozão chato para comer Crédito: Shutterstock
Dia desses meu paladar e meu bom senso resolveram puxar conversa com o bom gosto de uma criança no auge dos oito anos.
Rodeados por papos chatos de adultos numa mesa de self-service, ela comia uma pratada de tucunaré ao molho, arroz e banana frita com salada de tomates. Entre mastigadas, o curumim disse gostar da combinação refrescante porque, afinal, estávamos sob sensação térmica de 40 graus na divisa do Mato Grosso com o Tocantins - em pleno domingo de um agosto tão seco quanto rosquinhas de orégano servidas em reuniões pedagógicas.
Voltei no tempo e percebi que, antes mesmo de ser infantil, o meu paladar demorou um bocado para nascer. Foi gestado pela industrialização e amamentado (literalmente) com muito açúcar, muita gordura, cores vivas, personagens animados, propagandas questionáveis, glutamato monossódico, brindes diversos e uma rodela de plástico imitando hóstia que eu carinhosamente apelidava de Tazo.
Alimentado por uma lógica criada por adultos, essa criatura de Frankenstein - o paladar infantil - já veio ao mundo fadado à síndrome de Peter Pan. Passou anos se divertindo entre a casa de doces de João e Maria e a cesta com açúcares de uma Chapeuzinho Vermelho que queria bagunçar com as taxas de glicose de sua avó.
Perigosa mesmo, diziam-me, era certa fruta que fez engasgar Branca de Neve, além de também expulsar Eva e Adão de um lugar entendido como paradisíaco.
Não é curioso que no tempo em que eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim e depois veio me dizer que tirar doce de criança é mais fácil do que responder por que confeitarias e creches têm quase os mesmos nomes estampados no muro? Poderia o “sonho de mel” ser, na verdade, uma “doce ilusão”?
O paladar infantil cresceu e é um rapaz com certo medo de se tornar aquele tiozão chato para comer.
Não dá para ser doce o tempo todo, sob o risco, inclusive, de melar o pique: a infância precisa ser um espaço honesto para experimentar sabores.
O paladar por vezes amarga com o triste estereótipo de que crianças devem ser saudáveis à base de menus kids propostos pelo tédio de uma vida adulta perfumada por aromatizantes sintéticos que se dizem idênticos aos naturais… Ansiolítico acompanha?

Murilo Góes

Gastrônomo e pesquisador das culinárias brasileiras que também cozinha umas palavras

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
'Pesadelo da Alemanha' e Holanda dominada por sensação africana: a noite da queda de dois grandes na Copa
Imagem de destaque
Governo Trump vai 'tensionar' eleições no Brasil por medo da China, diz especialista que mapeou direita na América Latina
Acidente aconteceu na manhã desta segunda-feira, 29 de junho de 2026.
Se a lei de trânsito não chega, não existe lei

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados