O encerramento do 33º Festival de Cinema de Vitória será marcado pela pré-estreia da série documental capixaba “Admirável Mundo Gordo”, dos diretores Erly Vieira Jr. e Melina Galante. A ideia da produção nasceu das experiências vividas pelos próprios diretores e coloca artistas gordos do Espírito Santo no centro de suas poéticas, propondo um novo olhar sobre seus corpos.
Os diretores apontam que as representações de pessoas gordas na mídia, de modo geral, são atreladas à solidão, fraqueza, sedentarismo e insatisfação, ou reduzindo-as a meros alívios cômicos.
"Para nós, que somos pessoas gordas e convivemos com tantas outras pessoas gordas no nosso cotidiano, são imagens que não correspondem à realidade. Onde estão, no audiovisual brasileiro, imagens não-estereotipadas das pessoas gordas? Cadê personagens de filmes e novelas amando e sendo amadas, cadê imagens de pessoas gordas sendo felizes com suas vidas?", questiona Erly.
A proposta da obra é levar às telas a diversidade de possibilidades que corpos gordos podem ter no mundo, abordando experiências estéticas diversas no meio artístico e formas de se reinventar no cotidiano. A falta de referências positivas durante a adolescência foi uma das motivações pessoais de Erly para o desenvolvimento do projeto.
A diretora Melina Galante reflete sobre a ausência de representações humanizadas de pessoas gordas no audiovisual brasileiro: "Se a gente parar um pouquinho para pensar nas representações audiovisuais de pessoas gordas, quando não são negativas ou cômicas, elas são extremamente raras. São pouquíssimas as obras que trazem personagens gordas ou grandes a partir de uma ótica humanizada”, enfatiza a diretora.
Os diretores perceberam que, contrapondo a maneira como são representados na mídia, uma série de pessoas coloca seus corpos gordos de forma instigante e criativa no centro de suas poéticas, nas mais diversas modalidades artísticas.
"Isso move e motiva outras pessoas gordas a não terem vergonha de si mesmas e descobrirem a potência dos seus corpos e de suas existências. Daí a ideia de pensar num documentário seriado que, entendendo o mundo como um território que abarca os mais diversos tipos de corpos, apresentaria pessoas gordas como admiráveis, capazes de transformar a si mesmas e a outras pessoas", afirma Erly.
O intuito da obra, segundo os diretores, é alcançar o maior número de pessoas, mostrando que é possível pensar em um futuro onde ser gordo possa ser algo tão positivo e natural quanto qualquer tipo de corpo. "A gente não tá negando questões de saúde, muito pelo contrário, esse nem é o foco da série. Mas estamos justamente buscando mostrar possibilidades que façam as pessoas gordas olharem para si mesmas e enxergarem potência, beleza, amor, habilidades e talentos, para além de uma lógica gordofóbica que só oprime implacavelmente”, conclui Milena.
A série, que tem cinco episódios, está em fase de negociação com plataformas de TV e streaming e a previsão é que seja lançada ainda no segundo semestre de 2026.