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Ele batizou duas cidades capixabas e um museu carioca. Quem foi o “Linhares”?

Rodrigo Domingos Antônio de Sousa Coutinho, o Conde de Linhares, nasceu em 4 de agosto de 1755. Seu nome acabou batizando Linhares, Pancas e um museu carioca
Vitor Antunes

Publicado em 21 de Fevereiro de 2026 às 08:01

Português, conde batizou Linhares, Pancas e um museu no Rio de Janeiro
Português, conde batizou Linhares, Pancas e um museu no Rio de Janeiro Crédito: Arte de Camilly Napoleão sob foto de Biblioteca Nacional Luso Brasileira, Prefeitura de Linhares e Wikimidia Commons
Ele emprestou o nome a duas cidades capixabas e a um museu militar no Rio de Janeiro. Ainda assim, permanece um personagem pouco conhecido e fora dos círculos especializados. “Linhares” foi impressa em mapas, placas e documentos oficiais — e, nesse processo, acabou por suplantar o próprio homem que lhe deu origem.
Rodrigo Domingos Antônio de Sousa Coutinho foi homenageado, mas, até onde se sabe, nunca pisou no Espírito Santo. Ele nomeou a própria Linhares, bem como Pancas e o Museu Conde de Linhares, em São Cristóvão, no Rio.

Quem foi o Conde de Linhares?

Rodrigo Domingos Antônio de Sousa Coutinho nasceu em 4 de agosto de 1755, na cidade de Chaves, em Portugal. Era afilhado do Marquês de Pombal, o que não apenas o inseriu cedo nas engrenagens do poder, como também moldou sua formação intelectual e política. Rodrigo estudou no Real Colégio dos Nobres e na Universidade de Coimbra, onde concluiu o curso jurídico aos 23 anos.
Sua carreira diplomática teve início em 1779, quando foi nomeado ministro junto à corte da Sardenha, em Turim. Ali permaneceu até retornar a Lisboa, em 1796, para assumir a Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos — uma pasta estratégica, responsável pela administração de territórios que extrapolavam os limites europeus do Império Português, entre eles o Brasil.
Em 1807, no contexto da invasão napoleônica e da crise do Antigo Regime português, Sousa Coutinho tornou-se conselheiro direto de d. João VI. Foi um dos principais articuladores do alinhamento com a Inglaterra e da transferência da corte portuguesa para o Brasil — decisão que mudaria de forma irreversível o destino da colônia e, por extensão, o próprio desenho do Estado brasileiro.
Aqui, assumiu a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, e tinha como objetivo transplantar para o Brasil uma infraestrutura estatal capaz de sustentar um império em funcionamento. Criou o Arquivo Real Militar, a Academia Real Militar, a Real Junta de Fazenda dos Arsenais do Exército, Fábricas e Fundições. Estimulou a criação do Banco do Brasil e participou ativamente da reorganização administrativa e financeira da nova sede do Reino.
Foi também responsável pela fundação de instituições que extrapolavam o campo estritamente militar: o Jardim Botânico, a Biblioteca Nacional, o Arquivo Militar e a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. Em 1808, recebeu o título de Conde de Linhares, além de ser agraciado com a grã-cruz das ordens de Avis e da Torre e Espada, e tornar-se sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa.
Rodrigo de Sousa Coutinho morreu no Rio de Janeiro, em 1812, aos 56 anos. Seu impacto no Exército foi profundo e duradouro. Por isso, passou a ser celebrado como um dos baluartes da instituição, reconhecimento que explica por que seu nome batiza o Museu Militar Conde de Linhares, na capital fluminense.

Mas afinal, o que ele teria a ver com o Espírito Santo?

Diretamente, muito pouco. O Conde de Linhares, até onde permitem afirmar os registros históricos disponíveis, jamais pisou em território capixaba. Sua ligação com o Espírito Santo não se deu por experiência, vivência ou presença física, mas por meio de uma engrenagem típica do mundo luso-brasileiro do início do século XIX: relações pessoais, redes de patronagem e decisões administrativas tomadas à distância.
O batismo do povoado que mais tarde daria origem à atual cidade de Linhares nasceu dessa lógica. Ele se explica por uma relação de camaradagem política entre o então governador da Capitania do Espírito Santo, Antônio Pires da Silva Pontes, e Rodrigo Domingos Antônio de Sousa Coutinho. Amigo e protegido do futuro Conde de Linhares, Silva Pontes chegou à capitania investido de uma missão clara, definida nos gabinetes do poder imperial.
Como registra Maria Lúcia Corrêa Grossi Zunti em "Panorama Histórico de Linhares", o governador veio “com o firme propósito de abrir um caminho fluvial pelo rio Doce até Minas Gerais, iniciar a povoação de suas margens e criar destacamentos militares para proteger essas finalidades”. Tratava-se de um projeto estratégico: integrar economicamente a região, garantir o controle do território e conter os conflitos com os povos indígenas, especialmente os botocudos. Ainda segundo a autora, o Corpo de Pedestres - com cerca de 300 soldados - foi criado em 1800 para dar sustentação militar a esse plano.
O avanço português pelo vale do rio Doce ocorreu em meio a confrontos constantes. Diante dos embates entre indígenas e colonizadores, a Coroa determinou a instalação de quartéis militares ao longo do curso do rio. O primeiro deles foi o de Regência Augusta, batizado em homenagem a d. João, então regente de Portugal - nome que mais tarde se fixaria como do distrito de Regência. Em seguida, surgiu o Quartel de Coutins, uma homenagem direta a Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, então Senhor de Pancas e Coutins, títulos vinculados a domínios portugueses.
Antes de se tornar Conde de Linhares, Dom Rodrigo era conhecido como Senhor de Pancas e Coutins, denominações que acabariam ecoando, décadas depois, no batismo da cidade de Pancas. O poder imperial se exercia também por meio dos nomes: nomear um quartel, um povoado ou uma vila era um gesto de fidelidade política.
O primeiro nome do que viria a ser Linhares foi, portanto, Povoado de Coutins. Em torno do quartel, formou-se uma povoação modesta, marcada pela precariedade e pela instabilidade. Atacada diversas vezes por grupos indígenas, acabou destruída em 1808, num episódio emblemático: os soldados haviam se ausentado para socorrer outro povoado rio acima, deixando o núcleo vulnerável.
No mesmo ano, o então governador da capitania, Manoel Vieira de Albuquerque Tovar, subiu o rio Doce e promoveu a reconstrução do quartel e do povoado. Foi nesse contexto que o nome mudou. Dom Rodrigo de Sousa Coutinho havia sido recentemente agraciado com o título de Conde de Linhares, e a nova denominação do lugar funcionava como um gesto de deferência política.
Em 1809, um novo povoado foi oficialmente levantado no mesmo local, agora com o nome de Linhares, que acabaria se consolidando ao longo do século XIX. O imperador chegou a visitar a região, mas apenas décadas depois, quando o território já estava minimamente estabilizado.
Assim, Linhares nasceu menos de uma relação orgânica com seu patrono nominal e mais de uma cadeia de decisões administrativas, interesses estratégicos e homenagens protocolares. O nome atravessou o tempo; o homem permaneceu distante.
A Igrejinha Velha foi erguida no ano de 1888, no mesmo local onde em 1857 havia sido erguida a primeira igreja de Linhares
A Igrejinha Velha foi erguida no ano de 1888, no mesmo local onde em 1857 havia sido erguida a primeira igreja de Linhares Crédito: Reprodução/Prefeitura de Linhares/foto tratada e recuperada por iA

O museu carioca

Museu Militar Conde de Linhares, no Rio de Janeiro
Museu Militar Conde de Linhares, no Rio de Janeiro Crédito: Reprodução/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0
No Rio de Janeiro, a memória do Conde de Linhares ganhou contornos mais diretos e institucionais. Inaugurado em 12 de outubro de 1998, o Museu Militar Conde de Linhares funciona como um espaço de preservação da história do Exército Brasileiro e da própria trajetória da instituição ao longo dos séculos.
O museu abriga cinco exposições permanentes. A primeira, dedicada à evolução do armamento, percorre um arco temporal amplo: da Idade da Pedra Lascada até equipamentos e armas do século XX, oferecendo ao visitante uma visão material da transformação das tecnologias de guerra.
Outro núcleo central é a Casa da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que apresenta a rotina dos soldados brasileiros — os “pracinhas” — durante a Segunda Guerra Mundial, no teatro de operações da Itália. Uniformes, capacetes, armas italianas e alemãs apreendidas, além de objetos do cotidiano, compõem a exposição. Uma galeria cenográfica, com efeitos especiais, simula situações de combate e reforça o caráter imersivo da experiência.
Há ainda a Sala Major Elza, dedicada à Major Elza Cansanção Medeiros, a primeira enfermeira voluntária a integrar o 1º Escalão de Enfermeiras da FEB. O espaço presta homenagem a uma personagem frequentemente secundarizada nos relatos tradicionais da guerra, destacando a atuação feminina no esforço militar brasileiro.
Na área externa, o Pátio dos Blindados reúne viaturas, carros de combate e peças de artilharia utilizadas por diferentes tropas em distintos períodos da história militar. Completa o percurso a Sala de Miniaturas, que expõe uma coleção detalhada de carros de combate, canhões, obuseiros, lançadores de foguetes e mísseis, além de outros blindados históricos.

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