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Consequências

Fake news sobre violência muda rotina de moradores do Território do Bem

Pesquisa revela como a desinformação impacta a vida dos moradores da região,  sujeitos a perda de renda, emprego, consultas médicas

Publicado em 17 de Abril de 2025 às 03:30

Públicado em 

17 abr 2025 às 03:30
Vilmara Fernandes

Colunista

Vilmara Fernandes

Fake news no  Território do Bem
Crédito: Arte - Camilly Napoleão com Adobe Firefly
A vida das mais de 31 mil pessoas que vivem nos bairros e comunidades que compõem o Território do Bem — Consolação, Gurigica, Bonfim, Bairro da Penha, Itararé, São Benedito, e as comunidades de Jaburu, Floresta e Engenharia — é impactada, diariamente, pela desinformação. A situação é pior quando o tema está relacionado a violência, criminalidade e segurança pública.
Os conteúdos enganosos, as fake news, levam a mudanças na rotina dessas pessoas, trazendo consequências graves porque deixam de trabalhar, de sair de casa. Não vão ao emprego, escola, consultas médicas.
É o que revela a pesquisa “Tecnologia e Desinformação no Território do Bem”, uma parceria entre o professor e pesquisador David Nemer, da Universidade da Virgínia (EUA), a professora e pesquisadora Mirella Bravo (Faesa Centro Universitário) e o Ateliê de Ideias, organização que coordena o jornal comunitário Calango Notícias, na região.
Os dados do levantamento apontam que 77,6% dos entrevistados já receberam alguma desinformação sobre temas diversos, com destaque para segurança pública, política e saúde.
Também foi identificado que 77,98% acredita que a desinformação afeta a opinião pública, enquanto 25% já mudaram comportamentos devido a informações falsas.
A comunidade é mais impactada pelos conteúdos que circulam na própria região, relacionados principalmente à criminalidade, violência e segurança pública. Mas também é alvo de notícias falsas vindas de fora do Território do Bem, ligadas à saúde (covid e vacinas) e política.
Com isto, uma simples troca de informações que poderia ser considerada sem importância, acaba tendo consequências mais severas para a população desta região, observa o estudo. Faltar ao trabalho significa perder a renda do dia ou até mesmo o emprego, independente do motivo. Assim como crianças que dependem da merenda escolar podem ficar sem acesso à alimentação adequada.
E sem contar os reflexos psicológico e mental, causados pela tensão e preocupação constante. “O impacto não é só na narrativa, ele é real”, pondera o professor e pesquisador David Nemer.

O acesso

Como as demais comunidades, o Território do Bem está profundamente conectado. “Mas vulnerável à desinformação, especialmente via redes sociais”, assinala o estudo.
92,8% dos entrevistados possuem smartphones com acesso à internet. A conectividade alcança 89,85% que informaram usar a internet 4 a 5 dias por semana, e 36,3% passam mais de 15 horas diárias on-line.
Utilizam principalmente o WhatsApp (79,7%), seguido por Instagram (72%) e Facebook (47,5%). O primeiro sendo o principal meio utilizado para a desinformação. E embora a TV ainda lidere (77,99%) na divulgação de informações, as redes sociais têm ganhado mais peso.
É destacado que 23,77% revelaram nunca verificar a veracidade das informações antes de compartilhá-las. Outros lançam mão de recursos, como buscar notícias no Google, confirmam com a fonte original, observam se o texto é convincente, perguntam a conhecidos, verificam se veio de amigo/parente/conhecido, e há os que acreditam que são verdadeiros ou não checam.
“Esses resultados demonstram que, embora muitos sigam práticas de verificação, ainda há uma considerável confiança em fontes informais e em conteúdos que simplesmente alinham-se com suas crenças pessoais”, revela o estudo.
Nemer observa que esta exposição intensa leva as pessoas a uma fé meio cega na internet. “Mas é compreensível, com uma vida acelerada, às vezes a pessoa nem olha direito e já repassa”, diz, assinalando ainda que boa parte dessas informações chegam por Whatsapp, mas que nem sempre os moradores conseguem fazer a verificação por falta de acesso a internet gratuita.
A maioria dos que vivem na região pagam entre R$ 81 e R$ 110 pelo serviço, com 63% utilizando planos de celular. Outros preferem wi-fi público, pacotes de dados grátis ou ficam sem o acesso.
Mas vale lembrar que este é um serviço que também vem sofrendo reveses na região, sendo alvo de interesses do tráfico de drogas que cobram pedágio dos operadores para o fornecimento de serviços na região. O que já foi alvo de operações policiais e que por vezes deixa a comunidade sem sinal ou com uma cobrança mais cara.

Objetivo

Os dados citados fazem parte de um estudo que traz muitas informações sobre a região, parte de um projeto que tenta compreender o papel da tecnologia e da desinformação no cotidiano dos moradores do Território do Bem, e visa o engajamento comunitário como ferramenta de transformação social.
A obtenção de informações vai ajudar ainda na formação de influenciadores comunitários que possam atuar como multiplicadores de informações confiáveis, e que contribuam para o combate à desinformação e para a promoção de narrativas positivas sobre o Território do Bem.
Segundo Nemer, novas turmas de influenciadores devem ser criadas, além dos dez que já passaram por formação para lançar mão das redes sociais para desmantelar a desinformação.
Um ponto importante, segundo ele, é reverter outro estigma da comunidade, de que o compartilhamento de notícias falsas nas regiões marginalizadas está vinculado à educação precária.

Vilmara Fernandes

É jornalista de A Gazeta desde 1996. Antes atuou em A Tribuna. Foi repórter nas editorias de Política, Cidades e Pauta. Foi Editora de Pauta e Chefe de Reportagem. Desde 2007, atua como repórter especial com foco em matérias investigativas em diversas áreas.

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