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Kauã e Joaquim | 1 ano depois

Igreja liderada por George tenta se reerguer à sombra da tragédia

Wallace do Rosário, que assumiu a Igreja Batista Vida e Paz, em Linhares, conta que os fiéis ainda sofrem ao lembrar da tragédia que abalou a instituição

Publicado em 19 de Abril de 2019 às 17:59

Publicado em 

19 abr 2019 às 17:59
No mesmo púlpito onde Georgeval Alves Gonçalves pregava, quem atua agora é o pastor Wallace do Rosário. O religioso assumiu o templo da Igreja Batista Vida e Paz, em Linhares, no final de maio do ano passado, cinco semanas após a morte dos irmãos Kauã Salles Butkovsky, 6 anos, e Joaquim Salles Alves, 3 anos. Ele contou que ainda não superaram a tragédia e que os meninos estavam sempre na igreja.
Nascido no Rio de Janeiro, casado e pai de dois filhos, o pastor estava em um templo de Governador Valadares, Minas Gerais, quando foi transferido para a cidade do Norte do Espírito Santo. Ele confessa que teve receio de vir para o município.
"Havia rumores que iam apedrejar a igreja, colocar fogo. Uma reunião do conselho decidiu que eu viria à Linhares. Confesso que vim para cá com muito medo. Mas a fé das pessoas dessa igreja me ajudou", afirmou Wallace, durante o culto ministrado no último domingo (14), que foi acompanhado pela reportagem. Cerca de 100 pessoas acompanhavam a pregação.
A fala de Wallace emocionou os fiéis. Um deles, em especial, derramou lágrimas ao ouvir o pastor. Era o cunhado da pastora Juliana Pereira Salles Alves. Ele e a esposa, irmã da ex-líder religiosa, fazem parte do Ministério de Louvor da igreja e estavam no culto.
"Assim que cheguei em Linhares, fui na minha primeira reunião com os líderes de células (grupos de oração). Eles me ensinaram a ter fé e a amar Jesus sob todas as coisas, mesmo após os acontecimentos recentes", disse o pastor aos membros que assistiam ao culto, se referindo às mortes de Kauã e Joaquim.
Após a prisão do pastor George, em 28 de abril do ano passado, o templo foi alvo de depredações e os fiéis chegaram a registrar um boletim de ocorrência na ocasião. Por conta disso, o local chegou a ficar fechado por pouco mais de 20 dias e só reabriu no final de maio.
Pastor George conduzindo culto na Igreja Batista Vida e Paz. Crédito: FACEBOOK GEORGE ALVES - 30/04/2018
PERSEGUIÇÃO
"O motivo de estarmos aqui é o amor de cada pessoa por Deus. Alguns não suportaram, foram perseguidos e até proibidos de vir aqui. Mas a graça de Deus manteve todos vocês aqui", afirmou Wallace, sendo ovacionado pelos fiéis.
Ele ainda contou que outro pastor perguntou o segredo para manter tantos membros na igreja, mesmo após a tragédia com os meninos, a prisão de George e o vandalismo com o templo. "Eu respondi: 'Não tem segredo. Nem eu consigo entender como aquele povo está de pé. Da dor, eles tiram a força. O diabo foi vencido'", declarou Wallace durante sua pregação.
Igreja Batista Vida e Paz, em Linhares Crédito: Loreta Fagionato
No final do culto, o pastor conversou com nossa reportagem. Ele explicou que não iria assumir o templo, só ministraria os cultos enquanto outra pessoa não fosse transferida para a igreja. "Vim aqui uma vez, fiz o culto quando a igreja reabriu. Voltei para Valadares e pediram para que eu viesse mais uma vez em Linhares. Quando chegou a terceira vez, meu coração pedia para que eu ficasse no Espírito Santo. Foi quando decidiram que eu assumiria de vez a igreja daqui", revelou.
Wallace explicou que voltar a falar da tragédia que vitimou Kauã e Joaquim é como "descascar a ferida". "Esses meninos viviam aqui na igreja, corriam por todos os lugares, subiam no púlpito. Falar sobre o que aconteceu é descascar essa ferida. Ainda não superamos e acho que nunca vamos superar. Para os fiéis mais antigos, é uma grande dor", lamentou.

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