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Crime “home office”

Como agia homem preso por extorsão contra médicos e enfermeiros

Nove vítimas já foram identificadas pela Polícia Civil, entre elas, três capixabas, moradoras de Ibatiba e Venda Nova do Imigrante

Publicado em 02 de Julho de 2026 às 19:34

Caroline Freitas

Publicado em 

02 jul 2026 às 19:34

Um crime “home office”: assim foi descrito pela polícia o esquema de extorsão contra profissionais da saúde, que fez nove vítimas no país, sendo três delas no Espírito Santo. O suspeito de propagar o terror e fazer ameaças é Adalberto Pussiarelli da Silva, de 56 anos, preso na quarta-feira (1º), em um condomínio de casas de luxo em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. 


Adalberto tem extensa ficha criminal, com processos desde 1994, por crimes como homicídio, latrocínio, roubo e roubo qualificado. Mas seu modo de trabalho “evoluiu” recentemente, conforme destacou o superintendente de Polícia Regional Serrana, delegado Alberto Roque.


“Pelo perfil, é um criminoso contumaz, violento. E que usou toda essa experiência para praticar crimes contra o patrimônio. Ao invés de ir ao local, colocar uma arma na cabeça da pessoa, começou a dar golpes de dentro de casa, ligando, sem risco nenhum, no conforto do ar-condicionado, dentro de um condomínio de luxo. Um crime ‘home office’”, descreveu.


Na internet, ele pesquisava sobre municípios e buscava número de telefone de postos de saúde e clínicas médicas. Depois, efetuava ligações e pedia para falar com um médico, enfermeiro, ou outro profissional da saúde.


Quando era colocado em contato com alguém, começava a se passar por membro de facções criminosas e exigia certa quantia dos profissionais, sob ameaça de traficantes invadirem o posto.


“Fez uma vítima em Ibatiba e duas em Venda Nova do Imigrante. Em uma situação dessas, a coordenadora do posto ligou para a delegacia desesperada, dizendo que o posto seria invadido.”

Adalberto Pussiarelli da Silva, de 56 anos, foi preso em condomínio de casas de luxo em Cabo Frio (RJ) PCES/Divulgação

Outros casos semelhantes foram registrados em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. A polícia acredita, entretanto, que pode haver subnotificação.


O primeiro relato de extorsão no Espírito Santo surgiu em 10 de fevereiro, quando uma médica, funcionária de um posto de saúde, recebeu uma ligação, em que o criminoso começou a narrar uma história e disse que traficantes apareceriam no local, a não ser que fosse feita uma transferência via Pix.


Segundo o titular do Departamento Especializado de Investigações Criminais (DEIC) de Venda Nova do Imigrante, delegado Eduardo Oliveira, Adalberto tinha diversas linhas telefônicas registradas em seu nome. A que foi utilizada nas extorsões a capixabas, por exemplo, tinha DDD 27. E embora a narrativa, às vezes, tivesse pequenas variações, em geral, seguia o mesmo roteiro.


“Ele ligava para o posto, perguntava se o médico estava, dizia que um parceiro havia trocado tiros com a polícia, estava ferido e seria levado ali. Aí o profissional de saúde, que já estava naquele estresse de postinho, falava que tinha que levar ao hospital e ele (suspeito) insistia que levaria ao posto, porque a polícia apareceria no hospital, mas dizia que um parceiro iria primeiro, para ver se não tinha policiais no local.”


Quando o profissional de saúde tentava argumentar, o suspeito oferecia outra alternativa. Em troca de o suposto traficante ferido não ser levado ao local, o profissional precisaria transferir certa quantia – que, nos casos já identificados, variava entre R$ 200 e R$ 900 – para que pagassem um táxi para algum outro local.


Caso não conseguisse convencer com a primeira ligação, Adalberto ligava de novo, dizendo que o comparsa estava chegando e já se encontrava em uma rua próxima, cujo nome ele citava após pesquisa na internet. Com medo de um possível ataque, o profissional acabava transferindo o dinheiro.


“(As vítimas) são pessoas que, na maior parte das vezes, não estão habituadas a esse cenário de violência, e o próprio modo de agir dos marginais se baseia nessas vítimas pela maior possibilidade de êxito, porque, em tese, seriam mais fáceis de enganar com aquela história narrada”, pontuou Oliveira.


Agora, a Polícia Civil investiga a participação de outras pessoas no crime, inclusive porque a conta para a qual o dinheiro extorquido das vítimas era transferido não pertencia a Adalberto, sugerindo um crime de lavagem de dinheiro.

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