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Aos 21 anos

Campeã de xadrez no ES passa em Medicina após 10 tentativas: 'Nada me fez desistir'

Fernanda Júlia de Barros cuida da mãe diagnosticada com esquizofrenia. "Eu sabia que minha mãe precisava de mim e isso me motivava a nunca desistir". Ela conta que fez 10 provas e, somente na décima tentativa, conseguiu a aprovação

Publicado em 01 de Junho de 2022 às 11:01

Vinicius Zagoto

Publicado em 

01 jun 2022 às 11:01
A estudante Fernanda Júlia de Barros, de 21 anos
A estudante Fernanda Júlia de Barros, de 21 anos Crédito: Arquivo pessoal
O sonho de grande parte dos jovens brasileiros é entrar no ensino superior. Quando a trajetória até a aprovação é perpassada por desafios sociais e econômicos, entrar em uma universidade tem um significado ainda maior. Essa é a história da capixaba Fernanda Júlia de Barros, de 21 anos, criada pela mãe, que é diagnosticada com esquizofrenia, e sem ter o pai registrado na certidão de nascimento. Nesta semana, a jovem, que também é campeã de xadrez, foi aprovada em Medicina na Universidade Federal de Grandes Dourados (UFGD), no Mato Grosso do Sul
“Entrei no ensino público desde muito nova e nunca mais sai. Fui para creche aos seis meses, para a minha mãe poder trabalhar — ela era auxiliar de serviços gerais — e, na época, a doença dela estava mais controlada. Infelizmente, hoje em dia ela não pode mais trabalhar devido suas condições metais terem piorado”, conta.

APOIO DO TIO

Fernanda nem sequer conhece o pai, mas sempre teve o apoio da mãe e dos familiares. “Sempre tive ajuda da minha família, principalmente, do meu tio Roberto, que é irmão da minha mãe e nunca mediu esforços para me ajudar”.
A jovem relembra ser sempre aconselhada pelo tio. Ele dizia que a única forma dela ajudar à mãe era mudando de condição de vida através dos estudos. Foi com essa premissa que Fernanda se guiou em sua jornada até a aprovação.
A estudante Fernanda Júlia de Barros, de 21 anos Crédito: Arquivo pessoal

CAMPEÃ DE XADREZ

A jovem iniciou o ensino fundamental na escola Ezequiel Fraga Rocha, em Aracruz, no Norte do Espírito Santo, e lá conheceu o xadrez, por meio do projeto Mentes que Brilham, direcionado pelo professor Alessandro Camporez em 2008.
“O xadrez foi o início de muitas vitórias, comecei a participar de campeonatos e me destaquei em várias competições, fui campeã estadual por seis anos consecutivos, participei de competições a nível sudeste, garanti vaga para campeonatos nacionais de xadrez e, inclusive, fui patrocinada pelo Bolsa Atleta por dois anos”, explica.

ENTRADA NO IFES

Em 2015, Fernanda ganhou uma bolsa graças a uma prima que contou a história da jovem na escola particular em que trabalhava. A estudante então foi para a unidade particular complementar os conhecimentos adquiridos na rede pública e se preparar para a prova do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).
No ano seguinte, um mês antes da avaliação, no entanto, a mãe de Fernanda entrou em surto psicótico. “Foi muito difícil estudar para prova e cuidar da minha mãe ao mesmo tempo, mas graças a Deus, consegui superar essa situação e fui aprovada”.
“Dentro do Ifes foram quatro anos conciliando cuidados da minha mãe e o ensino médio na federal, lá na instituição também encontrei diversas outras dificuldades, afinal, a maioria dos alunos tinha condições financeiras melhores que a minha ou uma formação do ensino básico superior da que eu tinha recebido", relata.
"Eu precisava estudar dobrado todos os dias para compensar os déficits que o ensino público me deixou, tinha que cuidar da minha mãe, limpar a casa e cozinhar para ela, eram muitas responsabilidades, mas nada disso me fez desistir, utilizei cada dificuldade como degrau para alcançar voos cada vez mais altos”, completa.
Após anos de estudo e muita luta, Fernanda conseguiu concluir o ensino médio integrado com o técnico em Química pelo Ifes, em 2019, mesmo ano em que decidiu cursar Medicina.
A estudante Fernanda Júlia de Barros, de 21 anos
A estudante Fernanda Júlia de Barros, de 21 anos Crédito: Arquivo pessoal

ENEM

Em 2020, a jovem conseguiu, com a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), uma bolsa de estudos para um pré-vestibular em Vitória, foram três anos e meio estudando muito até conseguir a tão sonhada aprovação em uma instituição federal. “Fiz várias provas nesse período, bati na trave diversas vezes, foram 10 provas realizadas ao todo e, somente na décima tentativa,  consegui a minha tão sonhada aprovação em Medicina. Consegui fazer 980 pontos na redação do Enem e mais de 80% na pontuação da prova de Medicina".
A jovem se emociona contando a história e espera servir de inspiração para outros capixabas.
"Eu sabia que minha mãe precisava de mim e isso me motivava a nunca desistir"
Fernanda Júlia de Barros - Estudante
"Tenho muito orgulho da minha trajetória até aqui, orgulho de poder inspirar outras crianças e jovens a não desistirem dos seus sonhos, independente da sua condição social”, afirma.
Que a trajetória de Fernanda em Medicina seja de sucesso e que a história dela inspire outros jovens do Espírito Santo.

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