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Opinião da Gazeta

Violência registrada nas estradas do ES é atraso civilizatório

Acidentes tão graves como os registrados nos últimos dias não podem ser banalizados, pois mostram que ainda há muito a  evoluir para se criar uma relação menos predatória no trânsito

Publicado em 09 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

09 jul 2021 às 02:00

Colunista

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Acidente na BR 101, no limite entre os municípios de Fundão e Ibiraçu, envolveu seis veículos Crédito: Leitor | A Gazeta
A violência nas estradas no Espírito Santo pôs fim a uma família, na última segunda-feira (5) na rodovia ES 130, em Pinheiros, Norte do Estado. Pai, mãe e a filha de 2 anos não resistiram ao impacto da colisão do veículo em que estavam com um caminhão e morreram. No dia 1º deste mês, pai e filha perderam a vida em um acidente na ES 080, em Colatina. As vítimas estavam em uma motoneta quando foram atingidas por um carro em uma curva. O motorista fez o teste do etilômetro e confirmou-se a embriaguez.
Nas últimas semanas, o registro de acidentes nas rodovias, federais e estaduais, têm chamado a atenção não só pela recorrência e pelas mortes provocadas, mas também pelas dimensões das ocorrências. No geral, acidentes em que a negligência e o desrespeito às leis de trânsito são flagrantes.
No dia 29 de junho, seis veículos se envolveram em uma ocorrência na BR 101, no limite entre Fundão e Ibiraçu. Quatro caminhões e dois carros, em uma cena de destruição impactante, difícil até de se acreditar que alguém pudesse escapar com vida. Um Chevrolet Onix ficou completamente espremido entre as carretas e a carga. Por sorte, doze pessoas tiveram ferimentos leves e uma criança foi encaminhada ao Hospital Infantil de Vitória, por segurança. No dia 3, também na BR 101, entre Sooretama e Jaguaré, um médico morreu após cair com o carro que dirigia da Ponte Barra Seca e ficar submerso.
Na BR 262, nesta quarta-feira (7), um carro foi parar na lateral da pista, perto de uma barreira de proteção, e uma caminhonete caiu no barranco após um acidente que envolveu também uma carreta. Quatro pessoas ficaram feridas. Na mesma rodovia, o tombamento de uma carreta-tanque causou o vazamento de 17 mil litros de diesel em um rio às margens da via em Marechal Floriano, na manhã de terça-feira (6).
Esses são apenas os registros mais recentes dessa violência no Espírito Santo. No primeiro semestre de 2021, apenas nas duas principais rodovias federais que cortam o Estado, houve um aumento considerável de acidentes e mortes, na comparação com 2020.
Dados da Polícia Rodoviária Federal mostram que, de 1º de janeiro a 30 de junho de 2021, foram registrados, na BR 101 e na BR 262, 1.142 acidentes, sendo 409 deles considerados graves.  E 56 pessoas perderam a vida nas duas vias. Em 2020, no mesmo período, foram 1.013 ocorrências, com 331 acidentes graves e 52 mortes. Lembrando que, mesmo que no ano passado a pandemia tenha imposto uma redução na circulação de pessoas, o crescimento das estatísticas deve sempre ser motivo de preocupação para o poder público.
Ano após ano, não se consegue consolidar uma redução significativa de acidentes e mortes no trânsito, da forma como ocorreu com os homicídios na última década. Ainda se mata e se morre demais nas estradas, de forma tão banal e facilmente evitável. Uma verdadeira epidemia.
Acidentes ocorrem por uma conjunção de fatores, e não se poder tirar dessa equação o fato de rodovias sem segurança, em muitos casos com problemas de manutenção, ainda serem a realidade dominante. Nas rodovias federais, o atraso nas obras de duplicação da BR 101 amplia a possibilidade de tragédias, em uma via arterial que precisa ser urgentemente modernizada. Enquanto, na BR 262, permanece a espera da concessão para as obras que garantam mais segurança a quem trafega pela via.
Mesmo com esses problemas históricos de infraestrutura, não dá para eximir os motoristas das responsabilidades. O excesso de velocidade e as ultrapassagens indevidas são ações voluntárias de quem está ao volante que colocam todos em risco. E são comprovadamente as principais causas de acidentes. A imprudência no trânsito é o que mais mata. No caso de quem dirige sob efeito de álcool ou outras drogas, a responsabilidade é criminal. A paz no trânsito depende de quem está nele, e dirigir com atenção e consciência é indispensável.
Acidentes não podem ser banalizados: cada um desses registros da última semana deve provocar um incômodo na sociedade, por serem um retrato da falta de civilidade no trânsito, uma prova de que ainda há muito a evoluir para se criar uma relação menos predatória entre os condutores de veículos. O endurecimento das leis é sempre importante para inibir abusos ao volante, mas sem um comprometimento de cada motorista não será possível mudar a realidade sangrenta das estradas brasileiras.

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