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Disputa comercial

Entenda em 7 pontos as novas tarifas de Trump e o que pode acontecer com o Brasil

Investigação americana iniciada em julho de 2025 acusa país de práticas comerciais injustas; desfecho deve ocorrer em julho; setores de máquinas, têxteis, calçados e móveis podem perder competitividade no mercado americano

Publicado em 02 de Junho de 2026 às 19:42

Agência FolhaPress

Publicado em 

02 jun 2026 às 19:42

SÃO PAULO - A proposta do governo Donald Trump de impor uma nova tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros é resultado de uma investigação aberta há quase um ano pelos Estados Unidos. Em julho de 2025, o governo Trump abriu uma investigação comercial contra o Brasil com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.


O documento que deu origem ao processo apontava supostas práticas prejudiciais aos interesses americanos. Entre elas estavam o tratamento dado ao Pix, decisões judiciais envolvendo plataformas digitais, a venda de produtos falsificados na rua 25 de Março, tarifas de importação, questões ligadas ao etanol e o combate ao desmatamento ilegal.


Veja, em sete pontos, como o caso evoluiu, o que muda agora e quais podem ser os impactos para o Brasil.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
Proposta do governo Donald Trump impõe nova tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. Evan Vucci/Reuters

1. O que os Estados Unidos acusam o Brasil de fazer?


Ao longo da investigação, os americanos reuniram críticas em diferentes áreas.

Um dos alvos foi o Pix. O governo Trump argumenta que o Banco Central favorece o sistema brasileiro de pagamentos em detrimento de empresas americanas do setor financeiro. Os EUA chamam o Pix de "campeão nacional" de sistemas de pagamento, e afirmam que o "duplo papel" do BC como regulador e proprietário/operador do Pix cria um conflito de interesses.


Além disso, o relatório acusa o Brasil de:

Tarifas preferenciais injustas: Afirma que o Brasil reduziu tarifas de forma preferencial para determinados parceiros comerciais de grande porte, como Índia e México, em setores específicos, enquanto mantém tarifas mais elevadas sobre importações dos Estados Unidos, o que desfavoreceria as exportações norte-americanas; 

Aplicação da Lei Anticorrupção: Defende que os esforços anticorrupção do Brasil enfraqueceram, com promotores celebrando acordos de leniência pouco transparentes e indícios de conflitos de interesse em decisões judiciais, o que poderia prejudicar empresas americanas com atividades de comércio e investimento no país;

Proteção da propriedade intelectual: Aponta falha em combater eficazmente a importação, distribuição, venda e uso generalizados de produtos falsificados, consoles de jogos modificados e dispositivos de streaming ilícitos, sem remédios ou penalidades dissuasoras. O documento cita como exemplo a Rua 25 de Março, centro de comércio popular em São Paulo. Afirma que o Brasil intensificou fiscalização na 25 para combater crimes de pirataria e falsificação, mas destacaram que ainda há espaço para penalidades mais rigorosas para a falsificação.

Acesso ao mercado de etanol: Diz que o Brasil abandonou o tratamento recíproco e livre de impostos para o etanol, que promovia o comércio bilateral, e impôs tarifas de importação injustas sobre o etanol dos EUA;

Desmatamento ilegal: Cita a suposta falta de fiscalização efetiva das leis e regulamentações ambientais brasileiras, o que contribuiria para o desmatamento ilegal. Segundo o documento, áreas desmatadas ilegalmente são utilizadas para atividades agropecuárias, como pecuária e produção de milho e soja. Isso conferiria vantagem competitiva injusta às exportações agrícolas brasileiras.


2. Por que este tarifaço é visto como mais grave do que o anterior?


À primeira vista, a proposta pode parecer menos severa do que as tarifas anunciadas por Trump no ano passado. A alíquota sugerida agora é menor e a lista de produtos isentos é mais ampla e preserva setores importantes para as exportações brasileiras, como café e carne.

Porém, diferentemente dos anúncios anteriores, nos quais Trump unilateralmente se valeu da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, a nova sobretaxa é resultado de uma investigação formal baseada na Seção 301, um dos instrumentos mais tradicionais da política comercial americana.

A legislação autoriza o governo dos EUA a investigar e punir países acusados de manter práticas consideradas injustas ou discriminatórias contra interesses americanos. Ao longo das últimas décadas, o mecanismo foi utilizado contra diversos parceiros comerciais e ganhou notoriedade durante o primeiro mandato de Trump, quando serviu de base para as tarifas impostas à China.

Por ter respaldo jurídico mais sólido dentro da legislação americana, eventuais punições decorrentes da investigação tendem a enfrentar menos questionamentos judiciais e podem permanecer em vigor por mais tempo.

O Brasil ainda está sujeito a uma tarifa global de 10% imposta por Trump em fevereiro deste ano. A sobretaxa foi aplicada após a Suprema Corte do país derrubar as cobranças anteriores.


3. Qual pode ser o impacto para a economia brasileira?


O governo brasileiro calcula que a nova tarifa poderá atingir cerca de 21% de tudo o que o país exporta para os Estados Unidos.

Embora parte importante das exportações tenha sido poupada, setores industriais demonstraram preocupação com os efeitos da medida. Entidades empresariais afirmam que a simples possibilidade de uma sobretaxa já cria insegurança para exportadores e importadores. A medida dificulta a assinatura de contratos e a definição de preços para os próximos meses.

A CNI (Confederação Nacional da Indústria) avalia que a medida pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano e afetar cadeias produtivas dos dois países. Associações de segmentos como máquinas, calçados, móveis, madeira, têxteis e confecções também alertam para possíveis perdas de mercado.

No setor têxtil, por exemplo, empresas temem perder espaço para concorrentes asiáticos que não enfrentam a mesma sobretaxa. Já a indústria de máquinas argumenta que a medida penaliza justamente um setor em que os Estados Unidos mantêm superávit comercial sobre o Brasil.


4. O que ficou de fora e dentro da sobretaxa?


Segundo o USTR, foram poupados produtos considerados estratégicos para a economia dos Estados Unidos ou que poderiam provocar aumento de preços e problemas de abastecimento caso fossem taxados.

Entre os itens que ficaram fora da tarifa estão:

Café;

Carne bovina;

Suco de laranja;

Frutas tropicais, como manga, banana, abacaxi e mamão;

Medicamentos e vacinas;

Petróleo, gás natural e diversos minérios;

Componentes e equipamentos da indústria aeronáutica.

As maiores preocupações, porém, estão concentradas nos produtos industrializados que não aparecem na lista de exceções.

Segundo estimativas de economistas e entidades empresariais, os segmentos potencialmente mais afetados incluem máquinas e equipamentos, produtos elétricos, madeira e manufaturados de madeira, móveis, parte da indústria de transformação, além de têxteis, confecções e calçados.

Para esses setores, a tarifa pode representar perda de competitividade em relação a concorrentes de outros países e dificultar a ampliação das exportações para o mercado americano.


5. Ainda dá para evitar a tarifa?

Sim. Apesar da conclusão negativa da investigação, o processo ainda não terminou.

O próprio USTR reconhece que a proposta divulgada nesta semana é preliminar e abriu uma etapa de consulta pública para receber manifestações de empresas, entidades de classe e demais interessados. A expectativa é que diversos setores brasileiros e americanos participem do processo para tentar alterar ou barrar a medida.

Além disso, o relatório destaca que as negociações entre os governos brasileiro e americano continuam em andamento. Segundo o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, as conversas se intensificaram nas últimas semanas após contatos diretos entre integrantes dos dois governos.

A Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio no Brasil) afirmou que o documento deixa aberta uma janela para entendimento e que ainda existe espaço para evitar a adoção das novas tarifas.

O prazo legal para a conclusão da investigação termina em 15 de julho. Até lá, Brasília tentará convencer Washington de que as sanções não são necessárias ou devem ser reduzidas.


6. O que dizem os analistas?


Segundo Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, os principais atingidos pela proposta americana devem ser os setores de máquinas e equipamentos, madeira e manufaturados de madeira e produtos elétricos.

Os cálculos da consultoria indicam que cerca de 27% das exportações brasileiras para os Estados Unidos poderão ser afetadas pela nova tarifa. Apenas o setor de máquinas e equipamentos respondeu por US$ 2,36 bilhões em vendas aos americanos no ano passado. Já madeira e manufaturados somaram US$ 1,24 bilhão, enquanto produtos elétricos, como transformadores, responderam por aproximadamente US$ 920 milhões.

Para o economista, a lista de exceções divulgada pelo governo americano mostra uma preocupação em evitar impactos imediatos sobre a própria economia dos Estados Unidos. Segundo suas estimativas, os produtos isentos representam US$ 21,2 bilhões, ou 56,3% de tudo o que o Brasil exportou aos EUA em 2025.

Há ainda uma parcela do comércio bilateral que permanece em outra categoria. Cerca de 16,8% das exportações brasileiras estão sendo analisadas sob a Seção 232 da legislação americana, que trata de setores considerados estratégicos para a segurança nacional dos EUA. Nessa lista estão produtos como aço, alumínio, veículos, autopeças e derivados de cobre. Eles não foram incluídos entre os isentos, mas também não estão sujeitos à nova tarifa proposta pela investigação da Seção 301.

Vale afirma que a estratégia de Trump parte da ideia de que tarifas podem estimular a produção doméstica americana. Na avaliação do economista, porém, a medida tende a aumentar custos para consumidores e empresas dos próprios Estados Unidos, especialmente em setores nos quais não há substitutos locais suficientes.

Por isso, ele avalia que o momento exige uma busca mais intensa por novos mercados para as exportações brasileiras, reduzindo a dependência do mercado americano em alguns segmentos industriais.


7. Por que o tema virou disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro?


A ofensiva ganhou força depois que Flávio Bolsonaro se reuniu com Donald Trump em Washington e defendeu que os EUA adotassem medidas mais duras contra organizações criminosas brasileiras. Dias depois, o governo americano classificou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.

Lula acusa o senador de incentivar interferências externas em assuntos brasileiros e afirma que a família Bolsonaro atua contra os interesses do país. Flávio rejeita as acusações e sustenta que pediu a Trump para não aplicar tarifas sobre empresas brasileiras.

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