A última "superquarta" expôs uma divergência radical entre os rumos econômicos do Brasil e dos Estados Unidos. Na teoria, ambos os países enfrentam dores idênticas: choques globais de oferta, petróleo pressionado e atividade doméstica aquecida. Na prática, as respostas foram opostas.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) manteve a taxa estável entre 3,50% e 3,75%. Estreando na presidência da instituição, Kevin Warsh adotou um tom severo: retirou sinais de novos cortes e alertou que a inflação exige cautela extrema. O comitê americano priorizou blindar sua credibilidade institucional.
Os próprios integrantes do Fed sinalizam agora 80% de chance de uma nova alta de juros ainda este ano. O recado de Washington é claro: na dúvida, calibra-se o juro para cima para conter o fogo inflacionário. Enquanto a maior economia do planeta opta por pecar pelo excesso de zelo, resta saber até quando o malabarismo doméstico vai fingir que a fumaça por aqui é mero vapor.
Já em Brasília, o Copom (Comitê de Política Monetária) seguiu na contramão global e cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano. O movimento choca o mercado porque ocorre em um momento de clara deterioração dos indicadores domésticos.
As entrelinhas do comunicado do Banco Central revelam a incoerência. O texto admite a aceleração da atividade econômica e um mercado de trabalho superaquecido, com o desemprego na mínima histórica de 5,80%.
A inflação cheia e as medidas subjacentes também aceleraram, superando o teto da meta. Adicionalmente, as expectativas do boletim Focus para 2026 saltaram de 4,90% para 5,30%. Se a atividade ferve e as projeções descolam do alvo, o recuo dos juros carece de justificativa técnica sólida.
A engenharia para validar o corte residiu no que se pode chamar de "o truque do horizonte relevante". O BC inseriu parágrafos inéditos para esticar o horizonte de projeção do final de 2027 para o primeiro trimestre de 2028.
Como os modelos matemáticos apontam uma inflação controlada daqui a longos dois anos e três meses, criou-se o pretexto estatístico para cortar a taxa hoje. O problema é que decidir o presente com base em projeções tão distantes carrega baixíssima precisão e arranha a credibilidade da autoridade monetária.
O risco é inflado pelo próprio ambiente fiscal. O governo federal segue estimulando o crédito e o consumo via FGTS. O BC reconhece no papel que esse estímulo neutraliza os juros, mas afrouxa a Selic na prática.
Historicamente, esse DNA de esticar horizontes para forçar juros baixos cobra um preço alto. O país colheu credibilidade com laços de sobriedade de Ilan Goldfajn, mas pagou a conta do voluntarismo de Alexandre Tombini na inflação de 10,67% em 2015.
Como blindar o patrimônio
Para o investidor capixaba, o cenário exige cautela tática e diversificação em vez de apostas concentradas:
- Prefixados: o risco de marcação a mercado é alto se a inflação acelerar. Recomenda-se evitar posições longas.
- Tesouro IPCA+: oferece proteção essencial contra a inflação, mas demanda prazos moderados para mitigar oscilações de juro real.
- ETFs de renda fixa: diferentemente dos títulos diretos, não têm vencimento e expõem o investidor à marcação negativa perpétua. Devem ser evitados.
- Fundos Imobiliários e Bolsa: visão construtiva para FIIs de tijolo. Para ações, a recomendação é parcimônia e posições reduzidas na B3.
- Diversificação geográfica: alocar parte do patrimônio em moedas fortes deixa de ser luxo e vira obrigação para mitigar o risco político local.
Por fim, é preciso girar as manivelas das finanças pessoais: uma para frente, para aumentar o patrimônio, e a outra para trás, para diminuir as dívidas.
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