Em fevereiro deste ano, quando a Bolsa brasileira vinha em forte alta, alertei aqui nesta coluna que o principal motor do movimento era o fluxo passivo de capital estrangeiro, e não uma melhora estrutural da economia ou dos fundamentos corporativos. O investidor internacional, em busca de diversificação, direcionava recursos para mercados emergentes, beneficiando o Brasil. O movimento se manteve até abril, quando o fluxo do estrangeiro virou e passou a ser negativo. A reversão foi repentina e até um pouco surpreendente pela velocidade com que ocorreu. A mudança de narrativa foi muito rápida.
Com a economia americana demonstrando resiliência superior às expectativas, um consumo robusto, mercado de trabalho ainda aquecido e inflação mostrando resiliência, o Federal Reserve sinalizou um ciclo de juros mais altos por mais tempo do que se previa anteriormente. Este cenário elimina o principal fundamento para uma menor alocação nos Estados Unidos e uma maior diversificação internacional: o dólar fraco.
Para o Brasil, o impacto é direto. O país, que vinha se beneficiando desta rotação global de capital, perdeu esse vento a favor. Sem o suporte do fluxo estrangeiro, mesmo empresas com balanços sólidos e valuations atrativos enfrentam dificuldade para sustentar altas consistentes, visto que o alto juro pago na renda fixa mantém o investidor local afastado de aplicações de risco.
O quadro também contribui para a cautela. As revisões para cima nas expectativas de inflação levaram o mercado a precificar um ciclo de corte da Selic menos intenso. A isso se somam as incertezas fiscais e o ambiente político-eleitoral, que adicionam mais uma camada de risco sobre os ativos. Apesar de a Bolsa oferecer algumas companhias de boa qualidade, negociando hoje com múltiplos descontados em relação à sua capacidade de geração de valor para seus acionistas, sem um fluxo comprador relevante, seja estrangeiro ou local, o mercado tende a permanecer pressionado. Estamos, neste momento, sem gatilhos para uma reversão para um movimento mais positivo.
A volatilidade dos últimos meses é educativa ao mostrar que o timing no mercado de renda variável é muito difícil. Os fluxos mudam de forma rápida e, às vezes, surpreendente. Vivemos em um mundo mais conectado e imediatista, o que reforça a necessidade de uma visão de longo prazo, do investidor que compra boas companhias a bons preços e colhe os bons retornos dos lucros crescentes ao longo dos anos.
Não é a primeira, nem será última, que passamos por movimentos assim. Cedo ou tarde, algum fundamento atrativo volta a prevalecer, o fluxo volta e os ativos engrenam nova boa tendência de alta. Os que forem pacientes certamente colherão bons lucros.
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