A aliança entre o Partido Liberal (PL) e o Republicanos está
praticamente selada no Espírito Santo. De mais de uma fonte, dos dois lados da
mesa de negociação, ouvimos que “não tem mais volta”. Dois interlocutores,
ouvidos separadamente, usaram a mesma expressão: “99% fechada”. Só falta
equacionar esse 1% restante (chegaremos lá) e fazer o anúncio oficial.
Com isso, na eleição estadual, os dois partidos de direita
estarão na mesma coligação, na corrida ao Palácio Anchieta e na disputa pelas
duas vagas no Senado que estarão em jogo no Espírito Santo.
Para governador do Estado, o PL do senador Magno Malta
apoiará o ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Rep), que já contava com o
apoio do Partido Social Democrático (PSD), sigla de centro-direita comandada no
Espírito Santo pelo prefeito de Colatina, Renzo Vasconcelos.
Em contrapartida, a publicitária Maguinha Malta, uma das
filhas de Magno, será a primeira candidata ao Senado dessa mesma coligação, com
o apoio de Pazolini.
Na chapa majoritária desse grupo, falta definir quem ocupará
a posição de candidato a vice-governador de Pazolini (hoje reservada para o
PSD) e quem ficará com o posto de segundo candidato a senador. Neste último
ponto, encontramos aquele 1% que embaralha o jogo. É o que está “pegando” nos
bastidores.
Nessa composição baseada no tripé Republicanos/PL/PSD, há,
hoje, muitos pré-candidatos ao Senado para poucas vagas a preencher: apenas
duas. Aliás, agora apenas uma, já que a primeira está assegurada para Maguinha
Malta.
Desde o início das tratativas com o Republicanos de
Pazolini, essa foi a condição inegociável apresentada por Magno para firmar
qualquer tipo de acordo – como o que agora está prestes a ser sacramentado.
Presidente estadual há décadas e, sem exagero, “dono” do PL no Espírito Santo,
o senador e pastor evangélico não abre mão de tentar eleger sua filha e
ex-parceira de banda gospel, para ombrear com Maguinha no Senado pelos próximos
quatro anos.
Nos termos do acordo selado com o Republicanos, essa não foi
a única condição posta na mesa por Magno, mas foi, com sobras, a principal.
Representado desde o início pelo presidente estadual da
sigla, Erick Musso – procurador dos interesses políticos de Pazolini –, o
Republicanos topou. O ex-prefeito também concordou em abrigar e abraçar a
candidatura de Maguinha. Resta a segunda vaga na chapa. E é aí que o arranjo se
complica. Alguém terá de ceder e se retirar da disputa... ou ser retirado à
revelia.
No próprio Republicanos, existem dois pré-candidatos ao
Senado: o ex-deputado federal Carlos Manato (ex-PL) e o deputado federal Evair
de Melo, filiado à legenda conservadora em março, na última janela para trocas
partidárias. Ao lado de Erick Musso, Evair é o principal engenheiro da
pré-campanha de Pazolini desde o início do ano passado.
Já o PSD é, desde março, a casa de Serginho Meneguelli,
pré-candidato declarado ao Senado. “Declarado” é pouco. O deputado estadual tem
repetido que, desta vez, só aceita ser candidato a senador. Para viabilizar
esse projeto, está disposto a ir até as últimas consequências.
Em paralelo, o PSD ainda tem um “potencial candidato não delcarado” à Câmara Alta: desde maio de 2025, a legenda abriga o ex-governador Paulo Hartung, que já anunciou apoio a Pazolini para governador e, segundo pessoas próximas, cogita a hipótese de se candidatar ao Senado, se houver espaço para isso.
Correndo por fora, ainda há o partido Novo, que pode se
somar a essa coligação de direita, mas também tem candidato próprio ao Senado:
a direção do partido faz questão de lançar o vereador de Vitória Leonardo
Monjardim (aliado de Pazolini), mesmo que isso signifique concorrer de maneira isolada,
com uma candidatura avulsa.
Caso o leitor tenha perdido as contas, só aí já são cinco
possíveis candidatos para uma única vaga, ao lado de Maguinha Malta. Quem a
ocupará? De acordo com nossa apuração, a palavra final caberá ao Republicanos (leia-se
Pazolini), que lidera a coligação... mas acreditem: o senador Magno Malta está
exercendo fortíssima influência também nessa escolha do segundo candidato a
senador – definição, por assim dizer, complementar ao espaço já garantido para Maguinha.
Vale repetir: Magno não abre mão de eleger a própria filha.
Para tanto, além de lugar certo na chapa para Maguinha, o cacique local do PL está
buscando, nas conversas com o Republicanos, deixar a chapa com a configuração
mais favorável possível para ela. Em outras palavras, está fazendo gestões para
que o segundo candidato a senador seja alguém que facilite a eleição de
Maguinha e, se possível, a ajude, pedindo o segundo voto para ela.
Com o grau de influência mantido por Magno nessa articulação, é possível afirmar desde já: a pré-candidatura de Sergio Meneguelli entrou em estágio crítico e hoje respira por aparelhos.
“Meneguelli está
quicando”
“Meneguelli está quicando”, resume um correligionário de
Magno.
Notório desafeto do senador do PL, Meneguelli jamais pedirá
votos para Maguinha, muito menos se curvará a Magno. Nesse caso, o
ex-prefeito de Colatina não conseguirá se viabilizar, a menos que o PSD se
desgarre dessa frente e decida se arriscar num voo solo, com uma chapa
majoritária puro-sangue (sem outros partidos coligados), como o próprio
Meneguelli já defende.
Mas aí a decisão não é do próprio Meneguelli, e sim de Renzo
Vasconcelos (presidente estadual de direito do PSD), com grande influência de
Paulo Hartung e, notoriamente, do presidente nacional do partido, Gilberto
Kassab.
A bola estará com Renzo, mas também já podemos afirmar: uma chapa
avulsa do PSD (digamos, com Meneguelli candidato ao Senado e Hartung ao governo
novamente) soa muito inverossímil, improvável. Grande nacionalmente, o PSD é pequeno
no Espírito Santo. Não tem estrutura, recursos nem chapas de deputados para
sustentar um movimento solo como esse vislumbrado por Meneguelli.
Além disso, na decisão de Renzo, outro fator pesará muito.
Hoje, na coligação de Pazolini, o lugar reservado ao PSD é a vice do candidato
do Republicanos.
O nome mais fortemente cotado para preencher esse lugar é o
da médica Lívia Vasconcelos, ninguém menos que a esposa de Renzo e
primeira-dama de Colatina – até porque ela seria, como vice, um complemento
interessante para Pazolini: mulher, jovem, profissional bem-sucedida,
debutante nas urnas e interiorana.
Pazolini não quer perder o PSD. Magno tampouco, pois, fora de sua bolha, Maguinha é uma grande desconhecida e não pode prescindir do tempo de propaganda agregado pela sigla de Kassab. Mas, se permanecer nessa frente, o PSD tende a ficar sob estes termos e só mesmo com a vice.
Evair ganha terreno
na disputa interna
A preço de hoje, o favorito para ser esse segundo candidato
a senador, ao lado de Maguinha, passou a ser Evair de Melo, por agradar mais às
duas partes, tanto ao Republicanos (dada a já destacada proximidade política
com Pazolini e Erick) como ao próprio Magno Malta.
É fato que ambos tiveram desentendimentos recentes, entre fevereiro
e março deste ano. Ainda no PP, Evair se empenhou o quanto pôde para convencer
Magno a lançá-lo (no lugar de Maguinha) como candidato do PL no Espírito Santo,
unificando a direita bolsonarista em torno de sua candidatura (considerada por
ele mesmo mais competitiva). Esbarrou na obstinação de Magno em bancar a própria
filha. Mas isso já ficou para trás.
Do ponto de vista de Magno, Evair é uma solução mais
conveniente que as demais, em primeiro lugar, por sua extrema identificação com
o bolsonarismo. Assim como Magno, ele foi um dos primeiros políticos capixabas
a se perfilar a Jair Bolsonaro, já em 2017, além de ter sido um dos
vice-líderes do governo do capitão da reserva na Câmara dos Deputados.
Em segundo lugar, pragmaticamente, se Evair e Maguinha
formarem uma dobradinha (dobradinha mesmo, campanha em dupla, com cada um
pedindo o segundo voto para o outro), o entendimento é que o parlamentar, com
forte densidade eleitoral no interior do Estado, pode agregar votos à filha de
Magno, em setores onde ela “inexiste”: empresários e, principalmente,
produtores rurais.
Por essa perspectiva, em vez de dividir votos, eles se
somam.
As tentativas
frustradas de Magno
Segundo relatos de integrantes do PL e do Republicanos,
Magno teria entrado nas negociações fazendo uma pedida muito alta, que
incluiria até a vice de Pazolini. Não rolou. Então, ele passou a se concentrar
no que realmente mais importa para ele: o melhor arranjo para Maguinha.
Segundo relatos, Magno teria até cogitado que Maguinha fosse
a única candidata ao Senado da coligação, para concentrar todos os votos nela.
A ideia, por evidente, não convinha nada a Pazolini, pois ele deixaria de ter
outro candidato majoritário pedindo votos para ele a governador. Próxima.
Então, Magno propôs que o segundo candidato do grupo fosse
Leonardo Monjardim, do Novo. Isso a partir do entendimento de que, sendo este
um candidato mais frágil, representaria menor ameaça à campanha de Maguinha –
digamos, menor concorrência interna.
A ideia foi prontamente rechaçada por Erick e Pazolini.
Afinal, como explicar, a eles mesmos e a todos os envolvidos, eventual opção
por Monjardim em detrimento de nomes bem mais “cascudos” da política capixaba,
como Evair, Manato, Paulo Hartung e até Maneguelli? Próxima.
Assim, o nome mais fortemente trabalhado passou a ser o de
Evair, pelos fatores citados acima e até por eliminação...
Meneguelli é desafeto de Magno. Manato até poderia pedir o
segundo voto para Maguinha, mas é outro que acumula problemas com Magno. Saiu
do PL brigado com o senador, após desentendimentos relativos a uma dívida da
sua campanha a governador em 2022.
O que fará Paulo
Hartung?
Quanto a Paulo Hartung, apesar da recente inflexão à
direita, o ex-governador está distante do extremismo ideológico que Magno, nos
últimos anos, passou a personificar.
Para além disso, é difícil pensar em dois políticos mais
distantes no estilo, na personalidade, no jeito de fazer política... Se nunca chegaram
a poder ser considerados adversários, muito menos inimigos políticos, também
jamais cultivaram quaisquer relações políticas... Nos 12 anos de governos de
Hartung (fracionados em três mandatos), é possível contar nos dedos quantas vezes
Magno, mesmo sendo senador, pisou no Palácio Anchieta.
Se é difícil imaginar Hartung e Magno sentados à mesma mesa
política, mais difícil é imaginar os dois dividindo um palanque (mesmo que seja
o de um aliado em comum). Ainda mais difícil, para não dizer impossível, é
visualizar Hartung a pedir votos para a filha do senador.
Aliás, uma pergunta legítima diz respeito ao papel que
competirá a Hartung na campanha de Pazolini, em se confirmando tal formatação,
com o PSD na mesma coligação, espremido entre o PL e o Republicanos.
Nesse contexto, sem chances de viabilizar candidatura
própria, qual será o grau de envolvimento direto de Hartung na campanha de
Pazolini, a quem apoia para governador?
No pleito local, o objetivo maior de Hartung é ajudar a
impor uma derrota nas urnas à dupla Ricardo Ferraço (MDB) e Casagrande (PSB).
Para tanto, ele aposta todas as fichas em Pazolini, em quem identificou desde
cedo (corretamente) as melhores chances de derrotar o Palácio Anchieta.
Com esse objetivo prioritário, acredita-se que Hartung não
terá a menor dificuldade em dar um passo atrás (ou deixar de dar um passo à
frente que, a rigor, nunca deu), não sendo candidato a nada. Ao contrário de
Meneguelli, ele não tem essa obstinação.
A questão é que o palanque de Pazolini passará a ter Magno,
Maguinha e todo o bonde do PL que virá a reboque: de Gilvan da
Federal a, quem sabe, Capitão Assumção. A caravana da extrema-direita capixaba.
É possível que, nesse contexto, Paulo Hartung se reserve a
uma participação mais discreta, contribuindo sem aparecer, num papel que, em
certa medida, já começou a cumprir: o de procurar abrir portas para Pazolini junto ao
empresariado capixaba, segmento em que preserva ótimo trânsito.
O ex-governador tem sido ouvido pelos articuladores da
campanha de Pazolini.