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No Santuário de Aparecida

“Pátria Amada não pode ser pátria armada": o que Dom Orlando quis dizer?

Fazendo eco ao que disse o arcebispo de Aparecida, anda armado quem não foi amado. Portanto, amando (acolhendo mesmo pensando diferente) poderemos desarmar muitos

Publicado em 14 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

14 out 2021 às 02:00
Vinicius Figueira

Colunista

Vinicius Figueira

O arcebispo de Aparecida (SP), Dom Orlando Brandes, durante missa no Santuário Nacional nesta terça (12)
O arcebispo de Aparecida (SP), Dom Orlando Brandes, durante missa no Santuário Nacional nesta terça (12) Crédito: Reprodução/ TV Aparecida
Não sei se de qual denominação religiosa você é, mas se por acaso assistiu ao noticiário na última terça-feira (12) pode ter visto um senhor, de cabelos e vestes brancas, falando no Altar de Aparecida: “Pátria Amada não pode ser pátria armada”. O trocadilho do líder religioso reverberou fortemente em todas as pautas e mídias por ocasião do Dia de Nossa Senhora Aparecida.
O bispo também falou de fake news e de ódio. Imediatamente, foi feita uma associação com aquilo que o presidente Bolsonaro tem dado pauta no seu governo. Mas, em nenhum momento, Dom Orlando Brandes, o arcebispo de Aparecida, citou o presidente. Mais tarde, por volta das 13h, aterrissa em Aparecida Jair Bolsonaro. Entre vaias e aplausos, ele foi visitar o Santuário e participar da Eucaristia que Dom Orlando presidia com outros três padres.
Em seguida, nas redes sociais, iniciam-se as falas, acusações e expressões fortes e prematuras com versos do tipo: “Isso é hipocrisia!”, “De manhã critica e de tarde acolhe ou então elogia?”... Uma coisa chama a atenção: quem acompanhou a celebração das 14h pôde notar um detalhe, estratégico ou não, mas Dom Orlando não fez homilia, passou para outro padre fazer. O que ele quis dizer? Esse é o tema da nossa conversa de hoje.
Primeiro ponto que podemos considerar: em nenhum momento Dom Orlando cita o presidente, somos nós que associamos. Mas, ao não dar identidade aos termos, possibilita-nos ir além. A fala também pode ser dirigida a quem pensa como o presidente, aos anônimos que parecem dar força ao pensamento do militar. E quando paramos para pensar sobre isso, a gente se lembra que o ex-presidente Lula já colocou o tema de armamento em pauta no seu governo (2005) em plebiscito. Armar-se não é coisa de hoje, é apenas umas das defesas do presidente.
Segundo, Dom Orlando parece ter sido sim um profeta, e foi mais ainda quando dividiu o presbitério mesmo com quem ele pode não comungar as ideias. O profetismo passa pela denúncia e pela acolhida. Denunciar e cancelar é mais fácil. Conviver com o diferente é o mais nobre gesto de profetismo. Na mesma homilia, ele disse que “precisamos abraçar nossos políticos”, sim, abraçando, a gente consegue dar amor, renegando, a gente consegue dar munição.
Por último, temos um gesto simbólico, mas de confirmação das suas palavras. Na missa com o presidente, há três gestos: primeiro, o presidente é colocado para fazer uma leitura que falava justamente da “vida do povo”.  Depois, estrategicamente ou não, Dom Orlando pede a um padre para fazer a homilia (para não esvaziar as palavras da manhã?). E, no final, o presidente é convidado a fazer a consagração a Nossa Senhora.
Entre acusações e opiniões, temos a lucidez de um profeta que disse muito mais do que para Bolsonaro. Ele falou para muitos. Talvez, fazendo eco ao que disse o arcebispo de Aparecida, anda armado quem não foi amado. Portanto, amando (acolhendo, acolhendo mesmo pensando diferente) poderemos desarmar muitos e muitos.

Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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