Os últimos episódios envolvendo Michelle Bolsonaro, que transitam entre a espetacularização de sua figura pública e as nuances de sua atuação nos bastidores do poder, acenderam um debate que ultrapassa as fronteiras da polarização partidária.
Eles nos empurram para uma reflexão profunda, desconfortável e urgente sobre o que os movimentos feministas e os feminismos nos ensinam na luta cotidiana contra o machismo, a heteronormatividade e o controle dos corpos femininos. O cenário atual esfrega na cara da sociedade o quão estrutural é a sua misoginia.
Diante disso, emerge a inevitável provocação: será que existem, de fato, um "feminismo de esquerda" e um "feminismo de direita"?
À primeira vista, a tentativa de segmentar o feminismo sob réguas ideológicas atende mais a interesses de palanque do que à realidade das ruas. Enquanto setores à esquerda historicamente pautaram a emancipação feminina ligada à justiça social e à quebra de estruturas capitalistas, setores à direita tentam moldar um chamado "feminismo liberal" ou "cristão", focado no empreendedorismo e no fortalecimento da mulher dentro de papéis tradicionais ou institucionais.
No entanto, quando descemos ao rés do chão da sobrevivência feminina, essa divisão se esfarela. E é nesse momento que não podemos viver na ilusão das cores políticas diante da violência.
A violência doméstica é, por excelência, a força mais democraticamente cruel do país. Ela não pede título de eleitor, não consulta a filiação partidária e não escolhe classe social. A estatística brutal dos necrotérios e das delegacias da mulher nos mostra que o fato de ser mulher é o único requisito necessário para ser silenciada, agredida ou eliminada.
O agressor não discrimina se sua vítima defende o livre mercado ou a estatização dos meios de produção, ele pune a insubmissão à cartilha riscada pelos homens.
O episódio Michelle Bolsonaro escancara a sofisticação dos mecanismos rotinizados de manutenção da subalternidade da mulher. Mesmos quando alçadas a postos de destaque ou liderança política, mulheres muitas vezes são instrumentalizadas para humanizar projetos autocráticos ou para servirem de escudo moral para o machismo de seus pares.
A sociedade tolera a mulher pública desde que ela performe a "bela, recatada e do lar", ou que sua voz seja um eco amplificado das vontades masculinas. Quando o roteiro é quebrado, o sistema reage com o mesmo verniz misógino de sempre, seja deslegitimando sua capacidade intelectual, seja atacando sua vida privada.
E avança de forma cruel e nefasta. Por meio da tentativa de controle dos corpos, tenta-se ditar regras invisíveis de comportamento e estética. Por meio da heteronormatividade, utiliza-se como régua para validar quais mulheres merecem respeito e quais devem ser marginalizadas.
E pela estratégia do silenciamento, que ocorre tanto na ausência de denúncias quanto no esvaziamento do discurso de mulheres que ocupam o topo da pirâmide social.
O erro crasso do debate público contemporâneo é reduzir o feminismo a uma pauta identitária de conveniência. Se há algo que os feminismos, no plural, compreendendo suas interseccionalidades de raça e classe, nos ensinam, é que a emancipação não será um subproduto de concessões partidárias.
Não existe emancipação real que peça licença ao patriarcado para existir. Usar a pauta das mulheres apenas quando ela ataca o adversário político, enquanto se silencia diante do machismo dos aliados, é a maior prova da hipocrisia que alimenta o sistema.
A dor e a vulnerabilidade das mulheres na sociedade brasileira são universais. Enquanto a política institucional insistir em tratar o direito à vida e à dignidade feminina como moeda de troca ideológica, continuaremos reféns de uma sociedade profundamente machista.
A luta contra o controle de nossos corpos e nossas mentes não cabe em uma urna eletrônica, ela é um pacto de sobrevivência que precisa rasgar, de uma vez por todas, a cartilha escrita pelos homens.