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Sociedade

Quando a política perde a alma, a democracia é ameaçada

Ao saírem de cena a política e a democracia, outros mecanismos as substituem, mas, ao invés de serem produtores de vida e garantidores de direitos, seguem em direção oposta, produzindo violações

Publicado em 13 de Junho de 2022 às 02:00

Públicado em 

13 jun 2022 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Em ano eleitoral, termos como política, democracia e poder compõem narrativas, de maneira desvirtuadas, que acabam por colocar em risco conquistas mais recentes na construção de uma sociedade mais igualitária, justa e garantidora de direitos.
Política e democracia são dois termos que desde os primórdios da humanidade fazem parte do repertório de todas as sociedades. Temas que sempre despertaram a atenção de filósofos, sociólogos e juristas, mantêm uma ligação intrínseca com cotidiano de todas as pessoas, mesmo daquelas que as refutam. Outros as sustentam por meio discursos rasos e distorcidos, provocando esgarçamentos que acabam por desfigurá-las.
A primeira, a política, origina-se ainda nos tempos da organização das cidades-estados em pólis, relacionando-se com grupos sociais que se vinculam a organização, direção e administração dos Estados. Mais do que a ver com processos eleitorais partidários, dialoga com a vida das pessoas em um processo permanente de tomada de decisões, fazendo de cada um de nós um ser político-relacional, repisando, mesmo que algumas pessoas rechacem, essa realidade. E como bem asseverou Platão, com a nossa atualização, homem e mulher são, naturalmente, seres políticos.
No caso da democracia, enquanto categoria e dispositivo, é um regime político, em que todas e todos elegíveis, de forma direta ou mediante representação, participam da construção do sistema legislativo e exercem o poder de governança decisório, com a abrangência sobre as condições da vida social, econômica, cultural e ambiental da coletividade.
Infelizmente, ambos os termos, ao longo do tempo foram expropriados em sua essência, a partir do momento em que sofreram desvirtuamento, que incidem, diretamente, na sua sobrevivência.
Importante considerar que ao saírem de cena a política e a democracia, outros mecanismos as substituem, mas, ao invés de serem produtores de vida e garantidores de direitos, seguem em direção oposta, produzindo violações.
A democracia é confundida como algo que prescinde de respeito e regras. A política é demonizada, pela grande maioria das pessoas, que a apequenam reduzindo a partidos políticos e períodos eleitorais. A democracia e a política fazem parte da vida de todas as pessoas, e definem rumos e detalhes na vida privada.
Entrementes, importante atenção, considerando que a democracia demonstrou que não está em condições de saber alimentar-se espontaneamente, como já nos alertou Bobbio. Enquanto um instrumento, um método, ela não pode ser autossuficiente, não tem em si raízes com as quais alimenta-se. Precisa ser cuidada.
Além desse cuidado essencial, é imprescindível que se construa uma consciência de que o problema mais urgente para sair da presente crise, que é inegável, é contribuir para que democracia encontre a sua fundação ética, que encontra-se pousada na dignidade da pessoa humana.
Elementar nos atermos para a realidade de que a forma mais alta da democracia, a democracia representativa, encontra-se em crise profunda, principalmente com o fim das ideologias, dos últimos dois séculos passados, onde a política foi desidratada em sua tensão ideal e em sua inspiração ética.
Nesse diapasão, ao ter desidratada a sua tensão ideal, transformou-se em mero pragmatismo, tornado a representação democrática fragmentada, conflitiva e, assim, incapaz de realizar a unidade no respeito pela pluralidade.
Com esse fenômeno, que é letal para o sistema democrático, um dos instrumentos para se fazer política, o poder, se transformou em fim, quando na verdade é meio para se fazer política.
Nesse sentido, podemos ter a motivação de a política ter perdido a alma, e quando uma realidade vivente perde a alma, corrompe-se. A corrupção da política está sob os olhos de uma sociedade que, em sua grande maioria, brada ter ódio da política.
Assim que morre a democracia.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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