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Direitos humanos

Choramos por quedas de avião, mas não lamentamos chacinas na periferia

Em nossa sociedade, apenas algumas vidas são passíveis de luto, enquanto outras parecem descartáveis. Cabe à humanidade ter um outro entendimento da própria humanidade

Publicado em 31 de Outubro de 2020 às 05:00

Públicado em 

31 out 2020 às 05:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Velas e luto
Diferença no tratamento das mortes é, ao mesmo tempo, fruto e produtora de desigualdades Crédito: Freepik/Divulgação
Uma das perguntas que precisamos fazer enquanto humanidade é por que lamentamos algumas tragédias, como a queda de uma aeronave, um acidente fatal com uma celebridade ou o ataque ao World Trade Center, e não nos comovemos quando ocorre uma chacina na periferia, quando um motoboy morre no meio da cidade ou quando há um bombardeio na Síria.
As primeiras acontecem pontualmente, as derradeiras acontecem todos os dias. No pensamento de Judith Butler, existem vidas passíveis de luto e outras não. A filósofa norte-americana assevera que “uma vida não passível de luto é aquela cuja perda não é lamentada porque ela nunca foi vivida, isto é, nunca contou de verdade como vida. ”
Esse entendimento, por mais estarrecedor que possa parecer, considerando que vai de encontro aos discursos das instituições e poderes, se amálgama à realidade cotidiana de toda e qualquer sociedade. Vemos diariamente alguns países, comunidades, grupos, povos e pessoas se considerarem mais importantes do que outras, tentando justificar essa diferença de forma cínica para atender as conveniências, e com isso, aprofundam mais ainda o fosso das diferenças produtoras de desigualdades.
Existem pessoas que não lhe é facultado o direito de sofrer o luto pela morte de um ente, considerando as sentenças que são realizadas antes mesmo de se entender as tragédias. Outras mortes, no entanto, são açambarcadas de uma comoção tão intensa deixam claro que existem vidas que não são consideradas vidas, e por isso, descartáveis.
A escolha entre o deixar viver e fazer morrer acontece todos os dias em diversos cantos, e em muitos casos justificada pelo princípio da reserva do possível, que tenta a todo custo enquadrar a vida, esquecendo-se que a vida não cabe em caixinhas, e com isso acabam por violar direitos e reduzir a existência humana. Mas somente algumas vidas, pois outras vidas são garantidas, a despeito da perda de outras vidas, e isso não causa nenhuma comoção ou estranhamento.
A perda de qualquer vida precisa ser lamentada e enlutada, considerando a sua essência e a dor que causa nas pessoas ao seu entorno, e ainda, pela interrupção de projetos e sonhos. As pessoas sentem as perdas de forma diferente, mas isso não é determinante para se chancelar a diferença quanto a definição de que vidas merecem ser salvas ou protegidas. Todas as vidas são passíveis de cuidado e proteção, e não estamos diante de uma escolha de Sofia, mas de garantir as condições necessárias para que a vida de todas e todos sejam consideradas vidas passíveis de serem vividas e não tenhamos mais vidas consideradas descartáveis.
Caberá à humanidade ter um outro entendimento da própria humanidade. Enxergar no outro não só um semelhante, mas um sujeito de direitos, e respeitar essa condição. Despertar para o fato de que a saída para toda essa crise, além de ser coletiva, passa pelo agir diferenciado e possibilidades a serem construídas para que exista futuro.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Pública

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