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Sávio Bertochi Caçador

Marés da globalização: quem prosperou e quem ficou para trás

Ao longo de mais de um século, vimos países prosperarem ao alinhar sua abundância de fatores com as ondas do comércio global

Publicado em 20 de Junho de 2026 às 04:00

Públicado em 

20 jun 2026 às 04:00
Sávio Bertochi Caçador

Colunista

Sávio Bertochi Caçador

Há teorias que parecem nascidas para o mundo acadêmico, mas acabam se tornando lentes para compreender a história. O teorema de Stolper-Samuelson, formulado em 1941, por Wolfgang Stolper (1912-2002) e Paul Samuelson (1915-2009), é uma dessas. 


Ele mostra que o comércio internacional não é neutro: quando o preço relativo de um bem sobe, o fator de produção usado intensivamente nesse bem — trabalho ou capital — ganha, enquanto o outro perde. Essa lógica simples ajuda a explicar quem prosperou e quem ficou para trás ao longo dos séculos XX e XXI.


No início do século passado, o capital era o grande vencedor. A mecanização e a produção em massa elevaram os retornos das fábricas, enquanto trabalhadores não qualificados sofriam com baixos salários. 

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Os Estados Unidos prosperaram, abundantes em capital e tecnologia, mas a América Latina, dependente de exportações primárias, não conseguiu transformar sua riqueza natural em desenvolvimento amplo.


Após a Segunda Guerra, o comércio internacional expandiu-se. Países abundantes em mão de obra, como Japão e Coreia do Sul, prosperaram ao exportar bens intensivos em trabalho, elevando salários e construindo indústrias poderosas. Já o Reino Unido, com indústrias tradicionais e sindicatos fortes, sofreu para se adaptar à concorrência asiática, vivendo crises até a guinada neoliberal dos anos 1980.


A globalização das décadas seguintes foi quase um laboratório do teorema. A China, com sua abundância de mão de obra, tornou-se a “fábrica do mundo”, elevando salários urbanos e tirando milhões da pobreza. A Alemanha soube reposicionar-se, exportando bens intensivos em capital e tecnologia. 


Mas o México, mesmo com o Nafta, não conseguiu sustentar ganhos salariais diante da competição chinesa. Nos Estados Unidos, o capital financeiro e tecnológico prosperou, enquanto trabalhadores industriais enfrentaram estagnação e perda de empregos.


No século XXI, a revolução digital trouxe uma nova configuração. O bem intensivo em capital tecnológico — software, algoritmos, plataformas digitais — tornou-se o mais valorizado. Resultado: retornos ao capital humano altamente qualificado e ao capital financeiro dispararam, enquanto o trabalho não qualificado ficou preso à precarização. 

Economia digital Divulgação

A Índia prosperou com sua mão de obra qualificada em tecnologia, e o Vale do Silício colheu frutos da era digital. Já o Brasil, apesar do boom das commodities nos anos 2000, não conseguiu diversificar sua economia, e muitos países africanos permaneceram presos à exportação de bens primários.


O teorema de Stolper-Samuelson é, assim, uma bússola. Não explica tudo, mas mostra a direção dos ventos: quem ganha e quem perde quando o comércio muda os preços relativos dos bens. 


Ao longo de mais de um século, vimos países prosperarem ao alinhar sua abundância de fatores com as ondas do comércio global, e outros ficarem para trás por não conseguirem transformar vantagens naturais em desenvolvimento inclusivo. É uma crônica da redistribuição, em que cada ciclo histórico traz seus ganhadores e perdedores. 

Sávio Bertochi Caçador

É economista, doutor em Economia pela Ufes, professor e consultor

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