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Crítica

"Major Grom Contra o Dr. Peste" é ótima surpresa na Netflix

Superprodução russa, "Major Grom Contra o Dr. Peste" adapta série de quadrinhos em um filme que muito se assemelha aos filmes de super-heróis

Publicado em 09 de Julho de 2021 às 00:45

Públicado em 

09 jul 2021 às 00:45
Rafael Braz

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Rafael Braz

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Filme "Major Grom Contra o Dr. Peste", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
Em determinado momento de “Major Grom Contra o Dr. Peste”, um personagem diz para o outro “Um super-herói não é alguém com superpoder, é alguém que derrota um supervilão”. Essa frase resume bem o filme dirigido por Oleg Trofim para a Netflix baseado em uma série de histórias em quadrinho muito popular na Rússia: “Major Grom”.
Criada por Artem Gabrelyanov, a série de HQs traz histórias protagonizadas pelo policial Igor Grom, um honesto combatente do crime com habilidades de luta e um detetive de faro apurado. Igor nem sempre segue a lei à risca, conhecendo bem o submundo do crime de uma São Petesburgo ficcional, mas tem um forte código de conduta moral.
“Major Grom Contra o Dr. Peste” causa desconfiança pelo título, que parece bobo ou infantil para os não-iniciados no universo do personagem, mas é um filme capaz de surpreender e com vários bons momentos. A estrutura e as influências são óbvias: os filmes de super-heróis. Grom (Tikhon Zhiznevskiy) não tem poderes, mas é como se tivesse; logo que o conhecemos, já o assistimos em perseguição a ladrões de banco, uma “continuação” do curta do personagem lançado em 2017.
As sequências inciais causam um mix de estranheza e encantamento, pois somos colocados no meio da ação como se estivéssemos assistindo a “No Limite do Amanhã” (2014), mas não demora a entendermos que estamos acompanhando ao protagonista analisando as possibilidades daquela ação, pensando em cada consequência para cada escolha sua.
Grom é um cara carismático e charmoso, mas prefere trabalhar sozinho. Quando um justiceiro mascarado passa a fazer justiça com as próprias mãos, o detetive assume a missão de desmascará-lo antes que as coisas saiam do controle, mas percebe que sozinho talvez não chegue a lugar algum. Com vídeos em redes sociais e um discurso de “acabar com os corruptos”, o Dr. Peste se torna moda em São Petesburgo, com pessoas usando suas máscaras e agindo como ele - algo intencionalmente similar a “V de Vingança” (2005).
“Major Grom Contra o Dr. Peste” faz escolhas narrativas interessantes, como não demorar para revelar ao público a identidade do vilão. A decisão parece a princípio estranha, mas se conecta bem com a virada que dá início ao terceiro ato. O roteiro aproveita a viralidade do Dr. Peste para discutir acerca de liberdade nas redes e a responsabilidade que recai sobre quem compartilha conteúdo potencialmente perigoso. Não é uma discussão profunda, mas se encaixa bem à trama.
Ao contrário de filmes como o brasileiro “O Doutrinador”, “Major Grom” desde o início não romantiza a atuação do justiceiro, construindo-o como um vilão. Em contrapartida, Grom é desenvolvido como um herói, mesmo que sem profundidade alguma, e o filme é todo construído no antagonismo moral entre os dois. Até Fiódor Dostoiévski é citado em uma tentativa de justificar comportamentos de ambos os lados.
É interessante perceber como “Major Grom Contra o Dr. Peste”, um filme com lançamento global via Netflix, tem a intenção de mostrar uma Rússia moderna, ainda convivendo com amarras do ex-regime soviético, mas já mais forte do que suas cicatrizes. A intenção está presente também no estilo de narrativa e na estética - tudo no filme de Oleg Trofim lembra o cinema blockbuster americano, inclusive os defeitos.
Filme
Filme "Major Grom Contra o Dr. Peste", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
“Major Grom” tem ótimas sequências de ação, com o protagonista se saindo muito bem nas lutas, e é um filme que poderia facilmente ser protagonizado por Jason Statham. Os momentos em que Igor Grom estuda as possibilidades são ótimos e usados na medida certa, sem que o recurso canse o espectador ou torne-se repetitivo. A montagem também é eficaz ao utilizar fragmentos de noticiários jornalísticos para informar sobre o momento da próxima cena, quase como uma introdução a cada ato.
Contrastando com o estilo ágil de edição das lutas e perseguições, o filme abusa de clichês e de soluções “deus ex machina”, aquelas em que outro personagem aparece do nada, no último segundo, para salvar o mocinho. A estrutura é similar à de qualquer filme de super-herói, mas com uma pequena dose de cinema policial. Nada que não tenha sido feito antes. Isso é muito sentido no último ato, quando o filme perde a chance de seguir autoral e opta sempre pela saída mais fácil, priorizando, por exemplo, uma cena de ação simples a um momento que poderia oferecer carga dramática.
Filme
Filme "Major Grom Contra o Dr. Peste", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
A trilha sonora, composta quase que na totalidade por canções cantadas em russo, é brega e nem sempre casa bem com o momento em que é utilizada. Ainda, o roteiro aposta em algumas soluções bem repentinas, deixando o espectador de fora daquela descoberta de forma a não nos sentirmos parte daquilo, como acontece nos bons textos, somos apenas observadores.
Apesar de mais longo que o necessário, “Major Grom Contra o Dr. Peste” é uma agradável surpresa na Netflix. O filme fez sucesso na Rússia, onde foi lançado nos cinemas, e agora tem ambições maiores com o lançamento global. A possibilidade de uma continuação é gigante, pois há muitas histórias do personagem prontas para serem adaptadas. A sequência dos créditos é ótima e faz com que o público assista tudo até o fim, momento em que duas cenas pós-créditos preparam o terreno para o nascimento da franquia.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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