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Crítica

"Beauty": drama musical da Netflix é um grande e vazio equívoco

"Beauty" é praticamente uma cinebiografia não-autorizada da cantora Whitney Houston com a história de uma jovem cantora e seus conflitos em busca da fama

Publicado em 29 de Junho de 2022 às 23:40

Públicado em 

29 jun 2022 às 23:40
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Filme
Filme "Beauty", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
“Beauty”, lançado pela Netflix, é um projeto ousado. O filme dirigido por Andrew Donsunmu a partir do texto de Lena Waithe é um drama musical bem dirigido, com boa fotografia e boas atuações, uma sobre Beauty, uma jovem negra com um talento capaz de mudar os rumos da indústria musical americana. A premissa traz diversas possibilidades e o roteiro até ensaia explorar algumas delas, mas nunca segue adiante em nenhuma.
A ausência de profundidade seria facilmente compensada, ao menos para o público, com uma receita simples: filmes musicais normalmente emocionam com histórias de superação e, obviamente, músicas. “Beauty”, no entanto, tem a peculiaridade de ser um drama musical sobre uma jovem e talentosa cantora que nunca é vista cantando no filme. Sim, trata-se de um drama musical no qual nunca se ouve a voz da protagonista cantando.
Quando o equivocado “Bohemian Rhapsody” foi lançado, eu questionava os fãs do filme se eles gostariam do longa sobre o Queen se o filme fosse sobre banda fictícia ou se não tivesse as músicas eternizadas por Freddie Mercury, Brian May, John Deacon e Roger Taylor - sim, é um cenário fictício, mas “Beauty” talvez ajude a obter essa resposta.
O filme de Andrew Dosunmu é quase um recorte biográfico não-autorizado da carreira de Whitney Houston e, de fato, conta histórias da vida da cantora morta em 2012. Em 2019, histórias de seu relacionamento com a produtora Robyn Crawford vieram à tona. Robyn afirma que ela e Whitney eram namoradas na adolescência e que o relacionamento durou até o início do sucesso da cantora, quando a pressão familiar e do que se considerava um padrão no cenário musical teria falado mais alto.
Filme
Filme "Beauty", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
É essa a história que vemos em “Beauty”. Quando conhecemos a protagonista, interpretada por Gracie Marie Bradley, ela já nos é apresentada como uma jovem talentosa pressionada pelo pai (Giancarlo Esposito) para superar a mãe (Niecy Nash), uma grande cantora que nunca passou de backing vocal em estúdios. A família de Beauty tem fortes vínculos na igreja e pouco importa que seu pai não seja um exemplo de pai, marido ou cidadão - o patriarca, um “cidadão de bem”, está interessado apenas no contrato que sua filha pode assinar.
Com Beauty, também conhecemos os irmãos da cantora e Jas (Aleyse Shannon), inicialmente apresentada como melhor amiga, mas com quem a protagonista já tem uma tensão sexual forte desde o início. Essa tensão é bem retratada no filme, que deixa de explorar os muitos conflitos familiares de Beauty para focar em sua relação com Jas como o conflito do filme.
O texto também introduz a empresária vivida por Sharon Stone, uma mulher que conhece o mercado da música e enxerga em Beauty um potencial, mas que busca embranquecê-la para torná-la um produto mais vendável para meninas adolescentes. "Se você quer ser uma estrela, você vai ter que usar uma máscara", afirma, em determinado momento, a empresária. O embate entre o que Beauty busca ser e o que querem que ela seja é sempre presente, mas superficial o tempo todo.
Filme
Filme "Beauty", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
O roteiro tenta aproximar Beauty de Whitney ao mostrar a jovem fumando maconha na adolescência e adquirindo drogas sintéticas, um problema com a qual a “melhor cantora de todos os tempos” conviveu durante toda a vida, mas nunca se aproxima do excesso. Da mesma forma, o texto prefere vilanizar o pai da cantora de forma caricata a trazer os problemas de relacionamento que tinha com a mãe, que o filme trata com certa reverência.
Apesar de todas as inconsistências de “Beauty”, o filme é bem dirigido e visualmente bonito durante toda sua projeção. O grande problema do filme é a frustração causada por ele nunca chegar a um clímax - nunca vemos Beauty cantando e a acompanhamos apenas até o instante que antecede sua consagração.
É irônico como “Beauty” é um filme sobre a voz consideradas por muitos a melhor de todos os tempos, mas também um filme sobre como essa voz foi silenciada; só os envolvidos podem dizer se isso é intencional. De qualquer forma, há uma história poderosíssima a ser contada sobre religião, família, mercado musical, drogas, relacionamentos e sobre os personagens criados por artistas em busca do sucesso.
A escolha por essa estética alternativa aproxima a obra do cinema independente, mas a afasta do grande público com o qual Whitney Houston funciona bem. É quase como se “Beauty” fosse um rascunho apresentado por Andrew Dosunmu para convencer produtores de sua capacidade de dirigir uma cinebiografia da cantora. O filme da Netflix é correto o tempo todo, mas é também uma experiência frustrante e completamente esquecível.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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