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Crônica

Pequena súmula da maior tragédia em florestas no mundo

O garimpo já existia também. As águas claras e limpas já estavam começando a receber o mercúrio usado para captar ouro das várias fontes naturais

Publicado em 21 de Fevereiro de 2023 às 00:10

Públicado em 

21 fev 2023 às 00:10
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Nasci em Manaus.
Gostaria de morrer lá. Fiquei brincando lá pelos rios com meu avô Bonates, nas águas do Rio Negro, Solimões, um preto e um amarelo, que não se misturam, pelos afluentes, riachos... até os 13 anos. Meu avô e seu batelão a motor nos levavam algumas vezes por esses caminhos, de caniço e anzol em punho, onde pescávamos tudo o que a senhora possa imaginar. Só que bem maior.
Às vezes, vovô resolvia navegar com um barco maior e acoplava uma canoa na popa. Era o ano de 1954, por aí. Já havia indícios claros de destruição da maior floresta do mundo, pelo menos para mim. Entrávamos nos igapós e riachos pescando sardas, evitando as piranhas porque elas cortavam a linha. A selva, mesmo pertinho da capital, era fechada, ligeiramente ferida. Aloisio ia com a gente levando o terçado, as iscas e facas afiadas.
Já estavam derrubando a trator as imensas árvores, mas era apenas o início do ataque à natureza. Nesse tempo não se via índios à beira-rio, esses tratavam com delicadeza as matas, sua sobrevivência. Era comum o acasalamento dos índios com brancos ou sertanejos, geralmente vindos do Ceará para fazer a vida, como todo nordestino na época. Aloísio tinha o sotaque de lá – era do Piauí – e cuidava do nosso barco.
Agentes do Ibama destroem aeronaves e estruturas do garimpo na Terra Indígena Yanomami
Agentes do Ibama destroem aeronaves e estruturas do garimpo na Terra Indígena Yanomami em fevereiro de 2023 Crédito: Ibama/Divulgação
A mim parecia tão belo deixar escorrer o látex e ir para a próxima árvore que não ficava a menos de 10 quilômetros. Na volta, vinham recolhendo o produto em baldes e com a ajuda dos caboclos – cruzamento de brancos e índios – os adultos do nosso barco ajudavam a fabricar à beira-rio grandes bolas de borracha sólida. Esse era o produto da comercialização na época.
Minha senhora, o coração de menino doía ao ver passar arrastadas n’água imensas toras de madeira de lei retiradas a serrote. Cedro, Saboarana, Fruteiras… a maioria deles levavam mais de cem anos para crescer. Grandes empresas, imensos marginais, financiavam dinamite e pagavam os “seringueiros”. Já naquela época, alguns caboclos contavam o quanto morriam e eram jogados às piranhas, piraíbas e jacarés. As centenárias tartarugas eram capturadas nos habitats até o ponto em que foram exterminadas. Não há mais a tartaruga de água doce no Brasil.
O garimpo já existia também. As águas claras e limpas já estavam começando a receber o mercúrio usado para captar ouro das várias fontes naturais. Os empregados mal pagos e armados, já enriquecidos, isto é, os garimpeiros, se lambuzavam de lama, coavam com peneiras e jogavam a dupla sujeira novamente na água do rio. Igualzinho sempre fizeram e farão.
O financiamento desta enorme jornada contra a natureza que tornava - e torna - possível esse tipo de saque começou cedo e está longe de acabar. Escravizam os índios, queimam as matas e faziam o que fazem hoje e farão amanhã.
Não precisa ser nenhum gênio ou saber contar até dez para entender a necessidade de uma estrutura fortificada permanente para defender a floresta. Se for apenas carnaval, vai ficar como está. Ou pior.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, quer se inscrever como defensor do verde brasileiro.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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