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Psicanálise

Pandemia acabou, e agora?

Será necessário, como aconteceu na Inglaterra e em quase todos os outros países da Europa na Segunda Guerra Mundial, investimento nas unidades de saúde específicas para não interromper bruscamente a saúde mental na infância de ninguém

Publicado em 19 de Abril de 2022 às 02:00

Públicado em 

19 abr 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Poucos de nós curiosos e encantados com a psicologia, e em especial com a mágica do viés para a psicanálise, chegávamos a dominar o assunto quando se voltava para Carl Gustav Jung. O brilhante gênio alemão criava uma forma diferente do dizer sobre a relação Consciente e Inconsciente, tão brilhantemente inaugurada por Freud. Um depende do outro.
O que ele chamava “personalidade”, como o objeto que exprimia a totalidade humana, integraria na unicidade da totalidade do ser. Os símbolos, os símbolos.
Já contei pra vocês que um grupo de estudantes de medicina reunia-se em um pequeno auditório no Centro de Saúde de Vitória, Parque Moscoso, e sob a regência dos professores Antonio Barcelos, Cesar Mendonça e Liberato Schwartz discutia no tablado temas que havíamos estudando durante a semana. Além de Sigmund Freud, debatíamos Carl Rogers, Melanie Klein, Jacques Lacan, Anna Freud, Donald Winnicott, Ernest Jones, Françoise Dolto, Heinz Kohut, Sándor Ferenczi, William Reich, e muitíssimos outros. Éramos muito metidos.
Eu escolhi predominantemente Jung.
A preciosa arte de conceber sujeito e objeto no conjunto inteligente em pauta, a partir do núcleo mãe-bêbe, tanto quanto Consciente e Inconsciente, para este locutor que vos fala, foi a pedra mais preciosa que Deus deixou cair do céu. A partir desse duo, formam-se e nomeiam-se as coisas, e daí foram tirados todos os constituintes da Terra entre os humanos.
Agora que recebemos a praga nesse mais recente pandemônio na Terra, vou contar a vocês a importânciada tarefa de Jung de amparar, no plano psicossomático, pais e educadores, dentro do processo de crescimento e amadurecimento da Pessoa, sobretudo no caso da criança adotada, onde a ligação é em grande parte intelectual. Acontece sempre nas grandes guerras.
Dedicou-se a tudo o alemão, especialmente a psicologia infantil. O mais importante texto sobre isso está em “Psicologia Analítica e Educação”, onde Jung deduz que a vida escolar, quando existe de fato, é um olhar encantado.
É fundamental lembrar que esse sanatório mal arrumado que se instaurou nesse pandemônio vai precisar se organizar para a restauração psíquica de todo o povo, especialmente a partir das crianças.
Será necessário, como aconteceu na Inglaterra e em quase todos os outros países da Europa, na Segunda Guerra Mundial, investimento nas unidades de saúde específicas para não interromper bruscamente a saúde mental na infância de ninguém. Nem na vida adulta.
As crianças – e adultos – estarão feridas no mundo, no Brasil também, e terão o seu desenvolvimento estancado. Muitos geniais voluntários já deram material para formar as turmas que serão didato-terapeutas.
É preciso criar escolas de curso superior para a formação de gestores para tratar as crianças doentes – especialmente no plano do pensamento. É necessário pressa e fraternidade.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, já sabe ler.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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