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Desperdício

O absurdo ficou na praia: a usina que ninguém tem coragem de desligar

A usina nuclear de Angra dos Reis simboliza meio século de desperdício, impunidade e paralisia — um retrato fiel do Brasil que não aprende com os próprios erros

Publicado em 28 de Outubro de 2025 às 03:30

Públicado em 

28 out 2025 às 03:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Para quem acha que os governos ditatoriais só deram ao país golpes, assassinatos, sequestros, censura, tortura e coisas do gênero, saibam que produziram também o mais ridículo e inoperante monstro jamais visto no Brasil, nem em lugar nenhum: a usina Nuclear de Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro.
Todos os poderes se parecem, principalmente nas maldades e falcatruas.
Não pense a senhora, que absurdos como o Orçamento Secreto, as mamatas de mil estilos, roubos consentidos de pensões no INSS, a blindagem a favor dos parlamentares e as roubalheiras descobertas quase todos os dias, pararam. Continuam porque sempre estiveram aí. Isso sem falar das nomeações em elevados cargos de altas instâncias e os incomensuráveis salários sem concurso e sem competência técnica.
Usinas Angra 2 (à esquerda) e Angra 1 (à direita) em Angra dos Reis (RJ)
Usinas Angra 2 (à esquerda) e Angra 1 (à direita) em Angra dos Reis (RJ) Crédito: Eletronuclear
Leitores quinzenais, nada dessa gama de falcatruas chega aos pés da Usina Nuclear de Angra dos Reis.
Negócio o seguinte: em meados dos anos 7O, o Brasil estava sob o comando do general Geisel e a democracia, além de proibida, nunca podia ser citada – se houvesse, por exemplo, uma música que apenas usasse a palavra liberdade ou democracia, era censurada. Todo governo com essa modalidade de força precisa exibir poder e sangue de quem discordar.
E o que tem a usina nuclear com isso? Não serve para nada, mas custa tudo. Já mamou dos cofres brasileiros meio trilhão de reais. A folia continua na surdina. Paralisada, a “estatal estratégica” não serve para nada. Como diz o samba: a usina agoniza, mas não morre.
Os governos, todos, de direita, esquerda, de cima e de baixo, não tocaram o projeto megalomaníaco, nem para frente, nem para trás. A usina nuclear que sobrou, a de número três, dá um leve ar da graça. As outras sumiram. Quando a esquerda assumiu o país, considerou a estatal nuclear “estratégica” e impediu a privatização. Agora não sabe o que fazer. Aliás, ainda bem.
Sim, na vida tudo passa, exceto a usina nuclear de Angra. Dizem que em 64, o movimento justificava: “Encontramos o país à beira do abismo, afastamos os corruptos e subversivos e demos um passo em frente”.
Milhares de funcionários para nada. Nesse monumento ao delírio, a caravana permanece passando quase em segredo. Ninguém fala mais nisso, em governo nenhum, em lugar nenhum.
Vai ter que ficar eternamente fincada na praia, sem fazer nada e dando prejuízo. Enterrar não pode. Tirar de lá, nem pensar. Vão continuar disponibilizando recursos preciosos. E agora?
Chico Anysio, o humor brasileiro de Maranguape, dizia não acreditar no conserto do país, mas propunha um plano infalível: declarar guerra aos Estados Unidos, deixar-se invadir por eles, e pronto. Futuro garantido. E olha que Trump nem estava aí como está agora babando na gravata.
Então, o esporte bretão. Outro dia, lendo uma entrevista do ex-goleiro da seleção de futebol, o Leão, fiquei sabendo da esculhambação que é o sistema que estrutura as cúpulas da seleção canarinho. Agorinha mesmo, assistimos o selecionado ganhar e perder ao mesmo tempo do Japão, armando dois times ao mesmo tempo. Genialidade só acontece com a gente.
Minha senhora, não quero tirar suas esperanças, quem sou eu, mas tudo se passa como um drama sem saída.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, acha que a sabedoria total aparecerá no dia em que o país for completamente marxista: 40% de Groucho, 30% de Chico, 20% de Harpo e 10% de Karl.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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