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Política

A Assembleia e a chafurdante tentativa de homenagear a tragédia

Meninos, eu vivi aí. Fiz parte com vários capixabas de movimentos efetivos denunciando o golpe militar, onde quer que se estivesse

Publicado em 05 de Abril de 2022 às 02:00

Públicado em 

05 abr 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Sessão Especial foi aprovada pela Assembleia Legislativa no dia 8 de fevereiro
Assembleia Legislativa do Espírito Santo Crédito: Tati Beling/Ales
Dia desses fui convidado para, por assim dizer, um encontro de intelectuais. Primeiramente, enchi-me de orgulho pela inclusão e, segundamente, me perguntei o que viria a ser ‘intelectual”. Seria o ingresso em uma academia seletiva onde a inteligência fosse imprescindível? Porque, então, as academias estão repletas de parca cultura.
Em 1937, em Valência, na Espanha aconteceu um festejado encontro, um encontro da inteligentzia, onde a maioria dos temas apresentados não passavam de simplórios entretenimentos de salão.
Aqui no Brasil, a inteligentzia foi frondosamente substituída pela “burritzia”. A título de defender o direito de pensar individualmente com unhas e dentes, um certo inigualável Capitão Assumção, na falta de talento para fazer outra coisa, convocou todos os seus dois neurônios e propôs uma sessão solene em homenagem ao vergonhoso golpe militar de 1964, em alusão aos 58 anos do movimento, que faria aniversário em 31 de março. Como ninguém presta atenção a nada, aderiram bem aqui, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo - pasmem leitores e eleitores – à grotesca barbárie que foi aprovada e desaprovada. Não é engraçado o grotesco do cotidiano?
Respeitável público, segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, instaurada pelo governo federal para trazer à luz os crimes cometidos pelos que se auto-intitulavam à força representantes do povo na ”gloriosa redentora ditadura” de 1964, morreram no período centenas de pessoas inocentes torturadas ou “desaparecidas”.
A inimitável falta de vergonha é tanta que os apoiadores do mal esqueceram que, à época, parlamentares que faziam críticas em oposição ao regime ditatorial foram cassados humilhantemente. Muitos foram obrigados a refugiar-se no exílio, e o Congresso acabou fechado a toque de caixa em 1966.
Eis que nem tudo está perdido no reino da Dinamarca. Só para citar um exemplo, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Espírito Santo, José Carlos Rizk Filho, e a deputada Iriny Lopes conseguiram derrubar a sessão especial salvando os capixabas da vergonha.
Meninos, eu vivi aí. Fiz parte com vários capixabas de movimentos efetivos denunciando o golpe, onde quer que se estivesse. Vale ressaltar o trabalho cristão realizado pela Juventude Estudantil Católica (JEC), cujo lema “Abaixo a Ditadura” flamejava nos muros do Brasil. Exatamente ao deputado Assumção que fez o contrário. É de se lamentar que foram tão poucos parlamentares a votar contra a violência de um movimento ilegal e imoral, como o de 64.
É bom lembrar que nós eleitores somos os únicos responsáveis por essa chafurdante tentativa de homenagear a tragédia.
Aproveito para lembrar que o linguajar das autoridades gestoras do país – salvo exceções – é de uma forma tão transparente que se torna invisivelmente translúcido.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, não quer votar.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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