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Marcus Vinicius Sant'Ana

A mais simpática festa do nosso calendário

Mesmo diante de tamanha simbologia, apropriações positivas e recriações realizadas pelo nosso povo, as aclamadas festas juninas sofrem com uma considerável diminuição

Publicado em 25 de Junho de 2026 às 04:00

Públicado em 

25 jun 2026 às 04:00
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana

Acredito que a maioria esmagadora da população seja adepta, mas é provável que também existam aqueles que não gostam. Entre afeitos e avessos, é um fato que raríssimos são aqueles descrentes ou indiferentes. Refiro-me às festas juninas, ocupante incontestável das prateleiras de nossas tradições e uma das mais populares e comoventes manifestações da nossa gente. 


A sua prática, como tantas outras, chegou em solo brasileiro com as caravelas da colonização, quando os portugueses trouxeram o costume das grandes festas do mês de junho. 


Pesquisadores afirmam que o fuzuê junino tem origem nos povos do norte europeu que, durante o solstício de verão, dançavam, cantavam e comiam para celebrar as divindades responsáveis pela colheita e afastar aquelas que traziam intempéries. 

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Nas confluências da história, os folguedos destinados às entidades rotuladas como "pagãs” pelos católicos deram origem às celebrações que louvam os santos católicos do mês de junho.


Em terras brasileiras, encontraram no Nordeste, região dominada pelas lavouras, o palco perfeito para celebrar as colheitas. À época, quando os ciclos eram enrijecidos pela ausência da tecnologia, os festejos caíam exatamente no período de colheita do milho, o que explica a forte presença de comidas típicas feitas à base do cereal. 


A vestimenta campestre, termos como “caminho da roça” e até elementos pejorativos como o exagero no sotaque e a simulação de ausência de dentes são representações da ótica sudestina sobre as vestes nordestinas do festejo.


Para entender essa pândega, vamos começar pelo nome. O termo “junina” ocupou o lugar de “joanina”, como foram nomeados os festejos até meados do começo do século 20. A sentença fazia referência direta a João Batista, o São João, que segundo os cânones cristãos, tinha parentesco com Jesus Cristo — Isabel, sua mãe, era prima de Maria, a mãe de Jesus — e fora destinado, desde o seu nascimento, à missão de conversão e batismo do povo. 


Dia 24 de junho, data de seu nascimento, é o dia destinado à sua louvação e festejos. Seu nascimento também atrela-se a um dos principais elementos das festas juninas: a fogueira. Segundo narrativas advindas do catolicismo popular, Maria e Isabel ficaram grávidas em períodos próximos. Combinaram que, aquela que tivesse o filho primeiro, diante das dificuldades de comunicação da época, acenderia uma fogueira para anunciar a chegada do filho. 


João Batista veio primeiro ao mundo e uma grande fogueira foi acesa por Isabel. As fogueiras já estavam amplamente presentes nos rituais de colheita do norte europeu que originaram as festas juninas e, possivelmente, vem de lá a sua raiz, mas a versão gerada pelas camadas populares também é bastante difundida. 

Festa junina Pixabay

A influência do catolicismo popular — vertente da religião bastante sincretizada com elementos africanos e indígenas — também se fez presente na diferenciação das fogueiras. Sim, as fogueiras não são iguais, diferenciando-se em suas bases. No formato feito por tocos de madeira. 


Segundo a tradição, a fogueira de São João tem a base arredondada, em alusão ao ventre de Isabel e à circularidade da comunidade reunida pela fé; a de Santo Antônio tem a base quadrangular, simbolizando a estabilidade da família e o curral de um burro, referência à sua capacidade de amansar animais ferozes, virtude que deu origem à expressão “Santo Antônio Pequenino, amansador de burro bravo”; e a de São Pedro tem a base triangular, como homenagem à santíssima trindade. 


Já que falamos dos outros protagonistas da festa, os festejos “joaninos” tornam-se “juninos” justamente quando passam a englobar os outros dois santos festejados no mês de junho: Santo Antônio e São Pedro, celebrados, respectivamente nos dias 13 e 29. 


O primeiro, famoso por arranjar matrimônios, passou a abençoar aqueles que buscavam um par para partilhar a vida. A ele atribui-se a presença do casamento nas danças de quadrilha, dança esta que, originalmente, surgiu nos salões da alta sociedade e chegou aos festejos juninos como forma de sátira popular. 


Já São Pedro, eleito pelo povo como guardião dos céus e das chuvas, é reverenciado como finalizador das festas — já que sua data é mais próxima ao fim do mês — e como o grande responsável por regar a terra e garantir boas plantações futuras. 


Mesmo diante de tamanha simbologia, apropriações positivas e recriações realizadas pelo nosso povo, as aclamadas festas juninas sofrem com uma considerável diminuição de sua manifestação pelos cantos do país. 


A perversa intolerância religiosa, focada em demonizar tudo aquilo que está fora dos seus padrões normativos, não poupa nem mesmo a mais simpática festa do nosso calendário. 


Alguns, tentados a permanecerem com os fuzuês juninos, mas impedidos pelo preconceito sagrado, inventam festas reformuladas, que comportam todas as práticas tradicionais, mas excluem a presença dos santos. Um descabimento!


Como explicado pela história, as festas juninas e seus elementos são, invariavelmente, indissociáveis da fé popular e seus cruzamentos. 


Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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