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Eleições 2022

Segundo turno no ES sinaliza fim do "Casagrande paz e amor"

Críticas ácidas a Manato (PL) partiram do deputado federal Felipe Rigoni (União Brasil), mas movimento está em sintonia com a campanha do socialista

Publicado em 05 de Outubro de 2022 às 12:54

Públicado em 

05 out 2022 às 12:54
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

Renato Casagrande com apoiadores após resultado do primeiro turno das eleições no ES. O candidato do PSB obteve  46% dos votos
Renato Casagrande com apoiadores após resultado do primeiro turno das eleições no ES. O candidato do PSB obteve 46% dos votos Crédito: Vitor Jubini
A coluna analisou recentemente quais poderiam ser as estratégias dos candidatos ao governo do Espírito Santo no segundo turno, com base em entrevistas concedidas e sinais emitidos pelos próprios candidatos, Renato Casagrande (PSB) e Carlos Manato (PL).
Logo após passar à segunda etapa da campanha, o socialista já havia adiantado que haveria não apenas confrontação de projetos, mas também de "características pessoais" dos oponentes. E fez um alerta: "Não podemos correr o risco de ter retrocessos".
Esse discurso se aprofundou rápida e indiretamente. O deputado federal Felipe Rigoni (União Brasil) entrou na trincheira ao lado do governador do PSB.
Coube a Rigoni disparar, sem meias palavras, as críticas mais pesadas ao candidato do PL. Entrou em cena o episódio da saída, até hoje não muito bem explicada, de Manato de um cargo comissionado na Casa Civil do governo Jair Bolsonaro. Rigoni aponta que ele foi demitido por "incompetência". 
O parlamentar lembrou ainda que o adversário de Casagrande integrou a Scuderie Le Cocq, um grupo de extermínio conhecido como o esquadrão da morte, que ganhou fama nos anos 1990. 
De acordo com o Ministério Público Federal, "a entidade agia como personificação jurídica do crime organizado e como quartel de grupos paramilitares".  
Manato já rebateu Rigoni, disse que pediu para deixar o governo Bolsonaro e que, na Le Cocq, não participou de atividades relacionadas ao crime organizado, as quais desconhecia.
Casagrande, por sua vez, pouco depois da divulgação do vídeo em que Rigoni atacou Manato e defendeu o voto no socialista, foi ao Twitter dizer que "(A maioria dos capixabas) não quer a turma do atraso, nem a volta do crime organizado ocupando cargos públicos", perfilando-se, assim, ao que foi dito pelo parlamentar, mas sem citar o nome do candidato do PL.
"Os capixabas merecem o melhor, mas para assegurar isso vamos precisar do empenho de vocês. A ameaça do retrocesso, da violência e do crime precisa ser definitivamente derrotada no dia 30", complementou Casagrande.
Isso soa um tom acima do discurso empregado pelo socialista no primeiro turno.
Era, digamos, o "Casagrande paz e amor", para fazer aqui uma, talvez forçada, alusão ao "Lulinha paz e amor", slogan criado pelo marqueteiro Duda Mendonça em 2002.
Na primeira etapa do pleito, o governador evitou criticar os adversários. 
foi alvo de toda a sorte de bordoadas, que partiram não apenas de Manato, mas de Guerino Zanon (PSD) e Aridemo Teixeira (Novo), que ficaram para trás na corrida pelo Palácio Anchieta e já declararam apoio a Manato.
Audifax Barcelos (Rede) também partiu pra cima do socialista, que chegou a apontar, nos debates realizados pela Rede Gazeta, que os demais postulantes ao governo haviam combinado os ataques, o que eles negaram.
Nos debates Casagrande pareceu entre tenso e apático, deixou de responder enfaticamente aos adversários, fugiu dos temas. 
Parecia se esforçar para não rebatê-los. E frisou que pretendia se concentrar em propostas. Na maior parte do tempo, elencou os feitos da gestão estadual.
Pontualmente, desferiu alguns petardos, principalmente contra Audifax e Guerino.
A coluna testemunhou até uma intervenção, feita no intervalo do debate da TV Gazeta, pelo estrategista da campanha do governador à reeleição, Diego Brandy. Ao ouvi-lo, Casagrande concordou: "Mais, calmo, mais calmo".
Provavelmente, a orientação agora é outra, embora os ataques mais pesados sejam terceirizados.
O PLANO
Nesta terça, ao rebater Rigoni, Manato apresentou à reportagem de A Gazeta um plano, segundo ele, vazado da campanha de Casagrande, que orientava como os apoiadores do socialista deveriam se portar após a divulgação do vídeo protagonizado pelo deputado do União Brasil.
"Mobilizar as lideranças e a militância para engajar no vídeo, comentando com críticas ao Manato, apoiando a declaração do Rigoni e declarando voto no Casão", dizia um dos pontos.
E foi isso mesmo que ocorreu nas redes sociais de A Gazeta após a publicação da coluna a respeito do posicionamento de Rigoni.
E AUDIFAX?
Tudo isso ocorreu antes de Audifax, o ex-prefeito da Serra que ficou em quarto lugar na corrida pelo governo do estado, posicionar-se quanto ao apoio a algum dos candidatos no segundo turno.
Ele já havia dito à coluna que, ao lado de Casagrande, não ficaria.

O que foi a Scuderie Le Cocq

A coluna não tem aqui o intuito de reforçar ou endossar as críticas de Rigoni a Manato.  Mas alguns leitores mais jovens, ou que foram criados fora do Espírito Santo, indagaram o que seria exatamente a Scuderie Le Cocq.  

A entidade surgiu no Rio de Janeiro e ganhou adeptos em terras capixabas, principalmente nos anos 1990. Basicamente, era uma organização para matar pessoas, teoricamente, "delinquentes", mas que expandiu sua atuação. 

Vitimou agentes políticos. E também se organizou para eleger, por exemplo, prefeitos e vereadores. 

Em 1996, o Ministério Público Federal ajuizou ação pedindo a extinção da entidade. Na ação, o MPF registrou o seguinte:

"A Le Cocq assumia abertamente uma origem policial e intervinha na apuração dos crimes cometidos por seus membros, que se chamavam uns aos outros de irmãozinhos, para assegurar a eles a impunidade. 

 Além de policiais civis e militares, integravam a entidade até mesmo alguns membros do Ministério Público, do Poder Judiciário e outras autoridades públicas, que se mobilizavam sempre que qualquer de seus componentes era acusado ou simplesmente considerado suspeito de algum crime.  

O símbolo da Scuderie era formado por um crânio humano, sobre duas tíbias cruzadas em x, e pelas letras E e M, abreviatura de Esquadrão da Morte". 

Era uma coisa bem organizada, tinha até ficha de filiação.  

A 8ª Turma Especializada do Tribunal Regional Federal da 2ª Região confirmou, em 2006, por unanimidade, a decisão da 12ª Vara Federal do Espírito Santo que determinou a dissolução da pessoa jurídica Scuderie Detetive Le Cocq e a suspensão imediata de todas as suas atividades.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no site Gazeta Online/CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, tambem como repórter. Exerceu a função de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Letícia Goncalves.

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