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Moraes sumiu?

Para "blindar" Bolsonaro, Do Val se complica ainda mais

Senador do ES disse a apoiadores do ex-presidente que tramou contra o ministro Alexandre de Moraes e que "não tinha golpe". Em depoimento à PF, entretanto, Do Val contou uma história diferente. Parlamentar é investigado por falso testemunho e denunciação caluniosa

Publicado em 31 de Março de 2023 às 14:37

Públicado em 

31 mar 2023 às 14:37
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

Marcos do Val no plenário do Senado
Marcos do Val no plenário do Senado na última quarta-feira (28) Crédito: Wlaldemir Barreto/Agência Senado
As versões do senador Marcos do Val (Podemos) para uma reunião que teve com o então presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), e o então deputado federal Daniel Silveira (PTB) são várias. Às vezes Bolsonaro o coagiu a participar de um golpe de Estado.
Às vezes o presidente apenas ouviu, sem demonstrar contrariedade, Silveira contar a Do Val o plano de gravar uma conversa supostamente incriminatória com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, usar isso para anular o resultado das eleições de 2022, prender o ministro e manter Bolsonaro no poder.
E às vezes "não tinha golpe".
A segunda narrativa foi a que Do Val contou em depoimento à Polícia Federal no último dia 2 de fevereiro.
A terceira o senador lançou nesta quinta-feira (30), ao falar com apoiadores de Bolsonaro que aguardavam o retorno do ex-presidente em frente à sede do Partido Liberal, em Brasília. Ele voltou ao Brasil após passar, voluntariamente, três meses em Orlando, nos Estados Unidos. 
Há ainda outras versões apregoadas pelo representante do Espírito Santo, mas vou poupar os leitores.
Do Val, dois meses após, na primeira versão, acusar o ex-presidente de tramar um golpe de Estado, foi à sede do PL nesta quinta e tirou foto com o aliado. 
Conversou também com outros bolsonaristas. "Não tinha golpe de Estado, nem nada. Tinha falado: 'Bolsonaro, vou usar aquela reunião para fazer uma ação para te blindar porque ele (Moraes) quer te prender'", afirmou o senador, como mostra vídeo gravado pelo portal Metrópoles. 
"Como ele é o relator do ato antidemocrático, quando eu coloquei ele para dentro do processo, ele não pode continuar ser o relator. Tem que ser outro", continuou Do Val, aos risos. 
Na guerra de versões de Do Val contra Do Val, o senador chegou a anunciar, na mesma madrugada de fevereiro em que acusou Bolsonaro, que pediria licença do mandato e abandonaria a política. Voltou atrás horas depois.
O parlamentar já admitiu que mentiu para a imprensa em entrevistas e argumentou que fez tudo isso por "estratégia" e "inteligência".
O objetivo, como denota a conversa que teve com bolsonaristas nesta quinta, seria fazer com que Moraes deixasse de ser o relator do inquérito dos atos antidemocráticos. 
Moraes, entretanto, segue como relator.  Ele somente deixaria a função se declarasse a própria suspeição ou se o plenário do Supremo decidisse favoravelmente a pedido feito em ação de arguição de suspeição. Improvável.
Além disso, Jair Bolsonaro tem muitas contas a prestar ao Judiciário, nem tudo está nas mãos de Alexandre de Moraes. O ex-presidente não tem mais foro no Supremo Tribunal Federal.
Não podemos tomar como verdade essa versão de que não houve orquestração de golpe e que a ideia sempre foi blindar o então presidente da República.
Afinal, pontuei anteriormente neste espaço que Marcos do Val carece de credibilidade, uma vez que mentiu deliberadamente em algumas ocasiões envolvendo essa história. 
O fato é que o senador complicou-se ainda mais. Ele é investigado, desde fevereiro, por falso testemunho e denunciação caluniosa.
Se falou a verdade aos bolsonaristas em frente à sede do PL, mentiu oficialmente para a Polícia Federal, uma vez que, em depoimento, contou coisas muito diferentes e assinou embaixo.
Ao admitir que tramou para tirar Moraes da relatoria de um inquérito e, assim, beneficiar Bolsonaro, Do Val ainda pode ser acusado de outro crime: obstrução da Justiça.
Se falou a verdade à PF e mentiu para os apoiadores de Bolsonaro, bem, aí foi apenas mais uma mentira. Mas, politicamente, é constrangedor.
Em entrevista ao Metrópoles publicada nesta quinta, Marcos do Val se contradisse, para variar. Mas avaliou que o plano deu certo e cantou vitória:
"Eu falei que eu precisava disso para pegar o Alexandre. E o Alexandre sumiu. Alexandre de Moraes sumiu"
Marcos do Val (Podemos) - Senador da República, em entrevista ao Metropoles
Talvez em algum universo do multiverso isso seja verdade. O ministro segue trabalhando no STF. Foi Moraes, inclusive, que determinou a abertura do inquérito em que Do Val é investigado por falso testemunho e denunciação caluniosa.
Como já mencionado aqui, o ministro segue à frente do inquérito dos atos antidemocráticos. Também continua como relator do inquérito das Fake News e despacha normalmente – às vezes demora a se manifestar nos autos, o que irrita as partes – no Supremo. E é o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Nesta quinta-feira mesmo Moraes apareceu no noticiário. Foi o relator do voto que levou o STF a formar maioria para derrubar o direito de pessoas com curso superior à prisão especial.
"Cadê o Alexandre de Moraes? Está mergulhado. Ele recuou. A PGR começou a ser demandada por ele. Até então, não era", apontou Do Val na entrevista ao Metropoles. 
Moraes encaminhava, sim, desde antes do "Dovalgate", procedimentos à Procuradoria-Geral da República, que é comandada por Augusto Aras. O procurador-geral, indicado por Bolsonaro, contudo, tinha a estranha mania de se posicionar pelo arquivamento de quase tudo.
Logo, por vezes as manifestações da PGR eram ignoradas por Moraes e outros integrantes do Supremo. Isso sempre rendeu debates jurídicos.
Ao menos em relação a casos que envolvem políticos do Espírito Santo, o ministro não "recuou".
O vereador de Vitória Armandinho Fontoura, por exemplo, segue preso preventivamente, mesmo diante da contrariedade da Procuradoria-Geral da República, mas de acordo com o posicionamento do Ministério Público Estadual.
A DEFESA
A coluna entrou em contato com o advogado Edvaldo Fernandes, do Núcleo de Processos Judiciais do Senado. Foi ele que acompanhou Marcos do Val no depoimento prestado à Polícia Federal, em fevereiro.
Até a publicação deste texto, o advogado ainda não havia dado retorno.
A coluna também contatou a assessoria de imprensa e o gabinete do senador, em busca de alguém que pudesse defender, à luz do Direito, as declarações do parlamentar, mas também não obteve resposta.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no site Gazeta Online/CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, tambem como repórter. Exerceu a função de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Letícia Goncalves.

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