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Não há plano B

Estamos entrando em uma nova era de pandemias?

Diversos autores e especialistas têm escrito artigos chamando a atenção para o possível papel das alterações climáticas na emergência de doenças infecciosas. Precisamos cuidar mais de nossa casa, nosso planeta azul

Publicado em 25 de Agosto de 2022 às 01:00

Públicado em 

25 ago 2022 às 01:00
Lauro Ferreira Pinto

Colunista

Lauro Ferreira Pinto

Após quase três longos anos convivendo com a Covid-19, com todos os seus impactos no cotidiano, o medo de epidemias voltou a surgir com a rápida disseminação do surto de Monkeypox, uma doença ainda à procura de um nome melhor. Embora nem de longe possa trazer os medos que a Covid causou, precisamos refletir por que os surtos de doenças infecciosas estão se tornando mais frequentes. Será que a humanidade está entrando na era das pandemias?
Michael McCormick, professor de história de Harvard, depois de estudar 20 séculos de calamidades na Europa, concluiu que o ano de 536 dC foi talvez o pior da história da humanidade. Estudos em geleiras demonstraram que cinzas de erupções vulcânicas várias, como do vulcão Krakatoa, geraram nuvens negras que cobriram parte do hemisfério norte. Uma névoa cobriu a Europa, Oriente Médio e partes da Ásia; o sol perdeu a intensidade do brilho e as temperaturas caíram até 2,5 graus, iniciando a década mais fria em 2.500 anos.
Isso causou a mudança de comportamento de roedores que, à procura de alimentos, ampliaram seu raio de deslocamento, multiplicando seus contatos com as populações humanas na época. Com os roedores, vieram os carrapatos contaminados pela Yersinia pestis, agente responsável pela peste negra.
Em 541 dC, a doença tinha matado um quarto da população do poderoso Império Bizantino. Sua capital, Constantinopla, perdeu metade da população. A devastação causada pela peste e as perdas causadas pelo resfriamento súbito geraram uma depressão econômica no continente Europeu que persistiu até 640 dC. Afinal, as colheitas agrícolas foram prejudicadas e a fome afetou enormes parcelas da população por décadas.
Um artigo recente publicado na Nature Climate Change constrói um mapa que desenha a rede de interações potenciais entre mamíferos e vírus. Os locais com maiores possibilidades de saltos de vírus entre espécies (que os especialistas chamam de “spillover”) estão concentrados em regiões tropicais, onde existem maior diversidade e interações entre as espécies.
O homem quando desmata e invade ecossistemas cria novas condições para essas aproximações indesejáveis com novos vírus. O aquecimento global é hoje um agente poderoso de indução de migração de espécies e novas interações com os humanos. Diversos autores e especialistas têm escrito artigos chamando a atenção para o possível papel das alterações climáticas na emergência de doenças infecciosas. Precisamos cuidar mais de nossa casa, nosso planeta azul. Não há plano B.

Lauro Ferreira Pinto

Doutor em Doenças Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaço, reflete sobre saúde e qualidade de vida

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