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José Carlos Corrêa

Quem vai herdar o desequilíbrio fiscal

Em abril, o Banco Central informou que o déficit das estatais neste ano já chega a R$ 5,93 bilhões, o pior resultado da série histórica iniciada em 2002

Publicado em 05 de Junho de 2026 às 04:00

Públicado em 

05 jun 2026 às 04:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

O governo que será eleito em outubro, seja ele qual for, herdará – e terá que enfrentar, sabe-se lá como – um rombo fiscal difícil de ser revertido. O prejuízo de R$ 3,1 bilhões dos Correios, no primeiro trimestre de 2026, é apenas uma parte de um iceberg muito maior. 


Ele se soma aos prejuízos que a mesma estatal já registrou no ano passado de R$ 8 bilhões, cobertos pelo empréstimo de R$ 12 bilhões de um consórcio de bancos com a garantia do Tesouro Nacional. Não é preciso ser adivinho para prever que no final de 2026 o prejuízo será ainda maior e quem, no final da história, pagará essa conta.


E os rombos estão por toda a parte no casco deste navio verde-e-amarelo que tem no comando um governo perdulário, que gasta o dinheiro público de forma descontrolada e irresponsável. E não são só os Correios que submergem nesse oceano de prejuízos. 

Agência dos Correios Divulgação

A Eletronuclear, responsável pelas usinas nucleares, anunciou no fim do ano passado que não sobreviveria se não fossem suspensos os pagamentos de uma dívida de R$ 7 bilhões que contraiu com bancos públicos. 


Em abril, o Banco Central informou que o déficit das estatais neste ano já chega a R$ 5,93 bilhões, o pior resultado da série histórica iniciada em 2002. O Governo Federal chegou a admitir, na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027, que os déficits das estatais brasileiras permanecerão elevados pelo menos até 2030.


E não só nas estatais está o nosso desequilíbrio fiscal. O rombo nas contas do governo brasileiro atingiu, em março, R$ 80,7 bilhões. O déficit primário, de janeiro a março, foi de R$ 73,8 bilhões, o maior da história do Brasil em um primeiro trimestre. 


Somados os gastos com os juros da dívida, o déficit do setor público consolidado alcançou R$ 199,5 bilhões em um único mês. O déficit nominal anualizado nas contas públicas atingiu R$ 1,2 trilhão no acumulado de 12 meses até março, o maior da história. O total da dívida pública brasileira (R$ 10,35 trilhões) atingiu 80,1% do PIB, o maior nível em cinco anos. 

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Tem razão a economista Zeina Latif quando elege o enfrentamento da questão fiscal como uma prioridade que deveria ser adotada pelo governo. Mas ela mesma admite que, pelo menos por enquanto, a prioridade do governo é o oportunismo eleitoral que traz como consequências um maior aumento das expectativas de inflação, da curva de juros e da volatilidade dos preços de ativos, entre os quais o dólar e a bolsa. 


O “pacote de bondades” distribuído pelo governo com o intuito de melhorar a posição do presidente nas pesquisas eleitorais – envolvendo avanço de subsídios, renúncias fiscais e crédito facilitado – tende a agravar ainda mais problema. 


Relatório da Lev Intelligence, instituição focada em analisar cenários econômicos, estima que o déficit fiscal brasileiro em 2026 poderá superar os R$ 150 bilhões, tornando a meta do famigerado Arcabouço Fiscal – de R$ 34,3 bilhões de superávit primário em 2026 – uma peça de ficção.


O relatório da Lev cita, entre as medidas que agravam a situação fiscal do país, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, a expansão do crédito consignado privado e do Minha Casa, Minha Vida, a renegociação de dívidas dos “Desenrolas” e os subsídios em energia e gás de cozinha. 


O resultado dessa salada é o aumento exponencial da dívida pública e um orçamento público difícil – para não dizer impossível – de ser cumprido. Principalmente quando se sabe que esse orçamento está engessado por 90% de despesas obrigatórias, como os benefícios previdenciários, o pagamento de pessoal e seus encargos, o serviço da dívida, as transferências constitucionais para estados e municípios e as sentenças judiciais.


Trata-se, em síntese, de uma herança maldita que, seja qual for o governante, terá que ser sustentada pelo contribuinte brasileiro, que já é, há muito tempo, um recordista mundial em pagamento de impostos.

José Carlos Corrêa

É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço

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