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Eleições 2022

Quem afinal tem medo de Sergio Moro?

Receio de Lula e Bolsonaro, não há dúvidas, advém das perspectivas de viabilização de um candidato da terceira via que possa quebrar a polarização por eles sonhada

Publicado em 15 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

15 out 2021 às 02:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

Ex-ministro da Justiça Sergio Moro
O ex-ministro da Justiça e ex-juiz Sergio Moro Crédito: Pedro Ladeira/Folhapress
Sergio Moro passou alguns dias no Brasil, no final de setembro, e manteve contatos políticos com dirigentes do Podemos e do MBL (Movimento Brasil Livre) e com os presidenciáveis João Doria e Luiz Henrique Mandetta. Só a perspectiva da sua chegada desencadeou reações de Lula e Bolsonaro.
Lula chegou a dizer que, nas próximas eleições, “não há espaço para a terceira via”. “Eu penso que nós estamos caminhando para uma disputa política entre o PT representando setores democráticos da sociedade e o Bolsonaro representando setores fascistas da sociedade”, disse Lula. Bolsonaro já havia dito que o próximo pleito está entre ele “e o ex-presidiário”. “Não existe terceira via, está polarizado”, concluiu o presidente. Não é preciso qualquer esforço para entender que Lula prefere enfrentar Bolsonaro e que a recíproca é verdadeira.
Isso explica análises, alimentadas pelos governistas, de que a eventual candidatura de Moro à presidência da República poderia receber um máximo de 10% dos votos, garantindo um segundo turno polarizado entre Lula e Bolsonaro. Se esse quadro se concretizasse, seria o coroamento dos sonhos dos dois principais concorrentes.
Mas o artigo de autoria de advogados ligados a Lula, publicado na Folha de S. Paulo, defendendo a tese de que Moro não teria credenciais éticas para se candidatar a presidente, revela que, na verdade, o ex-presidente – e, por que não?, também Bolsonaro – têm receito de enfrentar Moro nas urnas.
O receio de ambos, não há dúvidas, advém das perspectivas de viabilização de um candidato da terceira via que possa quebrar a polarização por eles sonhada. As pesquisas indicam, além de um aumento expressivo na desaprovação do governo (o que, em tese, representa a inexistência de chances de reeleição do atual presidente), que Lula também tem alta taxa de rejeição (38%) que tende a aumentar com a campanha eleitoral.
Num quadro assim, a terceira via unida em torno de um nome com maior apoio da população poderia chegar ao segundo turno com chances de vitória. E, entre os nomes até agora cogitados para serem uma opção à polarização Lula-Bolsonaro, Sergio Moro, mesmo não tendo se declarado candidato, surge como um dos mais viáveis.
O maior obstáculo à viabilização da terceira via parece ser a ausência da união entre os pré-candidatos que disputam esse espaço porque, ao contrário do que desejam Lula e Bolsonaro, ele existe. Basta verificar nas pesquisas a rejeição aos radicalismos da direita de Bolsonaro e da esquerda de Lula.
Boa parte do eleitorado gostaria de interromper as insanidades de Bolsonaro sem retornar aos tempos dos aloprados do PT. Na pesquisa espontânea do Ipespe, em que não é apresentada a lista de candidatos, há mais pesquisados indecisos do que os que citam o nome dos dois atuais favoritos. E, mesmo quando a lista de candidatos é apresentada, um quarto dos pesquisados diz que não vota em qualquer um dos dois.
Se os políticos que não se alinham a Lula ou a Bolsonaro terão competência para viabilizar uma terceira via, que sirva de opção para essa massa do eleitorado que não deseja a atual polarização, é a grande dúvida que o quadro eleitoral precisará dissipar nos próximos meses.

José Carlos Corrêa

É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço

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