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Brasil

O capitão escorpião segue distribuindo picadas, pois essa é sua natureza

É lastimável que o presidente não dê atenção aos 40 mil brasileiros mortos pela Covid-19. Prefere acompanhar a exibição de tiros em uma base do Exército a visitar algum hospital onde os heróis nacionais arriscam a vida para salvar brasileiros

Publicado em 12 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

12 jun 2020 às 05:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

Jair Bolsonaro durante videoconferência
Jair Bolsonaro durante videoconferência Crédito: Marcos Corrêa/PR
As trapalhadas de Bolsonaro, repetidas quase todos os dias a despeito das conclamações à união feitas pelos presidentes dos outros Poderes da República, me fazem lembrar da fábula “O Escorpião e o Sapo”. Nela, o escorpião pede ao sapo que o leve através de um rio. O sapo tem medo de ser picado durante o trajeto, mas é convencido pelo escorpião sob o argumento de que, se picar, iria afundar junto com o sapo. O sapo, então, concorda em fazer a travessia, mas, no meio do caminho, o escorpião pica o sapo e os dois afundam. Logo após a picada, o sapo pergunta: “por que você me picou?”. E o escorpião responde: “é a minha natureza”.
O último a fazer a conclamação a Bolsonaro, para a união dos Poderes em torno do combate à Covid-19, foi o presidente do Supremo, Dias Toffoli. Na segunda-feira (8), ele afirmou que a “dubiedade” com que Bolsonaro se refere à democracia “assusta” a sociedade brasileira e a comunidade internacional e pediu uma “trégua” para que todos se unam no enfrentamento da pandemia. Os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, fizeram apelos semelhantes em visitas a Bolsonaro em maio.
Mas o que se sucede após esses apelos? Bolsonaro prossegue apoiando os atos antidemocráticos que pedem intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo, enquanto seu filho, 03, aposta em uma ruptura. Interpreta a Constituição como se ela autorizasse a intervenção das Forças Armadas em casos de conflito entre o Executivo e os demais Poderes, interpretação essa repudiada pelo mundo jurídico. E continua condenando as medidas de isolamento social contrariando as recomendações das autoridades da saúde do mundo inteiro. Enfim, continua agindo conforme a sua natureza.
É lastimável que o presidente da República não dê a mínima atenção aos 40 mil brasileiros mortos vítimas da Covid-19. Prefere acompanhar a exibição de tiros em uma base do Exército a visitar algum hospital onde os heróis nacionais – os profissionais de saúde – arriscam a vida para salvar brasileiros. Opta por manipular as estatísticas de pessoas contaminadas e mortas ao invés de tomar medidas de combate à pandemia.
A tentativa de manipulação dos dados da Covid-19 foi a mais clara demonstração de desprezo do governo pela realidade da maior crise sanitária vivida pelo mundo e pelo Brasil. A insinuação de que os governos estaduais estariam inflando os números foi classificada pelo conjunto de secretários de saúde como “grosseira, falaciosa, desprovida de qualquer senso ético, de humanidade e de respeito” merecendo, por isso, “profundo desprezo, repúdio e asco”.
Enquanto isso, o capitão escorpião continua distribuindo picadas, pois essa é a sua natureza.

José Carlos Corrêa

É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço

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