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Conflito

O que vi e vivi nas minhas viagens para Israel

Há uma faixa de segurança entre os dois países, onde todos devem passar a pé, com seus próprios pertences, sem ajuda de ninguém. Para pessoas idosas, é complicado

Publicado em 07 de Outubro de 2024 às 02:00

Públicado em 

07 out 2024 às 02:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Estive em Israel pela primeira vez, em 1988, como “peregrino à Terra Santa”. Naquela vez, visitamos a parte oriental de Jerusalém, ocupada após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, bem como as Colinas de Golan, onde nos hospedamos num kibutz, bem próximo à fronteira da Síria, e fomos até Metula, na fronteira com o Líbano, pois Israel também havia ocupado o sul do Líbano, só deixando o país em 2000, em luta contra o Hezbollah.
Os judeus se orgulhavam de, cada vez mais, expandirem seu território e de expulsarem árabes e palestinos para além, do Jordão. Nunca me esquecerei o massacre de Sabra e Chatila, em 16 de setembro de 1982, quando foram mortos cerca de 3.500 palestinos em campos de refugiados.
Na época, o mundo se chocou, pois era uma guerra de vingança, e não uma guerra convencional entre soldados, e a maioria dos mortos eram mulheres e crianças. Agora, 42 anos após, o massacre atual é ainda pior, pois, após terem matado mais de 40 mil civis em Gaza, Israel ataca, novamente, o Líbano e sua capital Beirute, matando centenas de civis, tudo em função de exterminar membros do Hezbollah, como o fizera em Gaza, contra o Hamas.
Desde a sua independência, em 1948, quando a ONU, presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, decidiu pela criação de dois estados na região, um palestino e um judeu, só o de Israel foi reconhecido. Desde então, financiado pelos Estados Unidos e outras potências europeias, Israel pratica uma guerra de extermínio contra os palestinos e sua intenção, claramente, é de expulsá-los para os países vizinhos, pois considera só seu aquele território.
Naquela primeira visita, conversei com a guia Bátia, que nos levou a Massada, símbolo da resistência judaica contra os romanos, no primeiro século da Era Cristã, e ela me explicou que o povo judeu jamais se rende e que nunca aceitará dividir o mesmo espaço com os árabes ou palestinos, que consideram inimigos figadais.
É um sentimento de ódio tão profundo que parece encontrar sua raiz na explicação bíblica dos filhos de Abraão, o pai do povo judeu e, também, do árabe. De acordo com a Bíblia, no Gênesis, Jacó teve o primeiro filho, Ismael, com a sua escrava egípcia, Agar e, depois, gerou Isaque, com sua mulher Sara, cujo período fértil já havia cessado.
Como Ismael era filho de uma escrava, e Isaque o único filho da esposa legítima, isso gerou uma desarmonia na família, com Agar sendo expulsa com o filho para o deserto. Isso foi há cerca de quatro mil anos e parece que, até hoje, o povo judeu, descendente de Isaque, deseja fazer o mesmo com o povo palestino, descendente de Ismael.
Voltei a Israel mais duas vezes, em 2011 e 2013. Na primeira, acompanhei um grupo de quarenta evangélicos, começando a viagem pelo Egito,  de onde fomos até a Península do Sinai, antes tomada por Israel, depois, devolvida ao Egito. Tínhamos segurança armada, pois turistas são sempre alvo de terroristas e a travessia na fronteira do Egito para Israel foi um suplício.
Há uma faixa de segurança entre os dois países, onde todos devem passar a pé, com seus próprios pertences, sem ajuda de ninguém. Para pessoas idosas, é complicado. Percorremos todo Israel, de Eilat, no Golfo de Ácaba, ao norte, nas colinas de Golam. Jericó e Belém, que, antes estavam sob controle de Israel, agora, pertencem ao estado palestino e é bastante tensa a travessia de fronteiras. A todo momento, corria-se o perigo das Intifadas, quando jovens palestinos jogavam pedras nos judeus e seus visitantes.
Mísseis são interceptados pelo sistema de defesa aérea israelense sobre Hadera, Israel, nesta terça-feira, 1°
Mísseis são interceptados pelo sistema de defesa aérea israelense sobre Hadera, Israel, nesta terça-feira (1°) Crédito: ARIEL SCHALIT/AP
Por último, visitamos Israel numa parada de cruzeiro, inicialmente prevista para os portos de Ashdod, no sul, e Haifa, no norte, mas que só pôde ser concretizada em Haifa, pois Ashdod estava sob ataque de mísseis vindos de Gaza.
Enfim, essa guerra entre eles nunca acabará, enquanto houver combatentes, pois o ódio que sentem um pelo outro é milenar e só terminará quando não existir ninguém mais para o carregar. Liderados por um senhor da guerra raivoso e cruel como Benjamin Netaniahu, a destruição continuará por longo tempo, até que outros o sucedam.
Disse o Dalai Lama: “O único fator que pode proporcionar refúgio ou proteção contra os efeitos destrutivos da raiva e do ódio é a prática da tolerância e da paciência”. E isso, parece, nunca existirá entre eles.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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