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Luta sem fim

Quantos episódios de racismo ainda seremos obrigados a assistir?

Por Vinicius Junior, que sofre na Espanha, e por milhares que sofrem no Brasil todos os dias, os racistas precisam responder por seus crimes. Chega de notas de repúdio, faixas e cartazes com mensagens rasas. É preciso punir!

Publicado em 23 de Maio de 2023 às 05:30

Públicado em 

23 mai 2023 às 05:30
Filipe Souza

Colunista

Filipe Souza

Vinicius Junior confrontou torcedores racistas do Valencia
Vinicius Junior confrontou torcedores racistas do Valencia Crédito: Getty Images/BBC Brasil
Caros, é extremamente exaustivo. Quem acompanha minimamente o meu trabalho sabe que por aqui falamos de muito mais do que só futebol. E racismo é um dos assuntos que inevitavelmente precisa ser tratado neste espaço. Não é com satisfação, mas por necessidade. E segue sendo revoltante ver que é um cenário que não muda.
Confesso que até demorei a escrever sobre o ocorrido com Vinicius Junior. Acho que é porque é difícil digerir. Um jovem preto, de 22 anos, hostilizado por milhares de criminosos disfarçados de torcedores em um estádio. E esse foi só um dos episódios mais gritantes ao longo de uma temporada em que dia após dia, Vini foi alvo de insultos racistas em jogos do Campeonato Espanhol.
É inacreditável ver que o ser humano é capaz de querer diminuir uma pessoa pela cor da sua pele. Vinicius Junior apenas se dedica ao seu trabalho. É um dos melhores do mundo no que faz, mas é obrigado a lidar com atos cruéis e desumanos. E o pior, os racistas se sentem no direito de manter suas práticas criminosos.
Vini foi ofendido, agredido e ainda foi expulso pelo árbitro de campo, mesmo na condição de vítima. As reações beiram o inacreditável. Imprensa cobrando desculpa do atacante aos torcedores, presidente de La Liga repudiando o jogador e não o racismo, jogador brasileiro do clube rival tentando minimizar o ocorrido ao dizer que a torcida chamou Vini de “tonto” e não de “mono” (macaco em espanhol). Querem a todo custo achar que tudo isso é normal.
Eles querem o direito ao racismo, mas merecem pagar por seus crimes e falta de humanidade. Nenhum preto quer ser forte na luta contra o preconceito, isso é algo que o mundo impõe, mas nunca um desejo. Qualquer preto quer ser respeitado, quer sentir a liberdade de não ser julgado pela cor da sua pele, e quer justiça. Por que o negro tem que ser forte na luta contra o racismo e ser obrigado a aguentar tudo isso? Até quando?
Chega de notas de repúdio, basta de faixas e cartazes com dizeres rasos sobre a luta ao racismo. Não dá mais! Os responsáveis precisam ser punidos e as pessoas precisam entender que racismo é crime. E também não dá para se indignar apenas quando as manifestações racistas tomam grandes dimensões. Não dá para vestir a camisa antirracista hoje e jogar ela fora amanhã.
O episódio na Espanha é grave, mas aqui no Brasil milhares de jovens negros morrem todos os dias. O racismo mata. Vivemos em um país, que por ser preto você pode ser confundido e ter seu carro metralhado com 80 tiros, ou pode ser espancado em alguma sala fechada de um supermercado. Vira estatística: “caso isolado número 100 mil”.
Sabe porque eu detesto escrever sobre racismo? Porque toda vez que escrevo sobre isso minha mente revisita momentos que eu gostaria de esquecer: o olhar de quem acha que vai ser assaltado só de te ver do lado em um espaço público, o segurança que te acompanha em cada corredor do supermercado, a revista truculenta e gratuita na entrada do bairro, ser parado em todas as blitz. É a eterna suspeita de que o preto tá fazendo coisa errada. Isso sem contar no mercado de trabalho que é preciso se esforçar o dobro dos concorrentes para conseguir uma vaga ou ter que se provar importante em todo o tempo para não correr o risco de ser demitido.
Minha esperança, não só desta vez, mas quase sempre, é que esse barulho resulte em medidas mais efetivas. Que o racismo seja combatido de verdade, e não com iniciativas que virem poeira com o tempo. Que toda atitude preconceituosa seja devidamente punida. Seguimos na luta.

Filipe Souza

Jornalista da Rede Gazeta desde novembro de 2010, já atuou na CBN Vitória e como editor no site e de Esportes, na edição impressa. Desde 2019, mantém o cargo de editor de Esportes, agora do site A Gazeta, onde é também colunista. Antes trabalhou na Rádio Espírito Santo. É formado em Jornalismo pela Estácio de Sá.

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