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Saúde

Oropouche: o que está sendo pesquisado no ES para combater a doença

Com a combinação de expansão geográfica, aumento de casos e infraestrutura ainda despreparada, há sempre o temor de que possamos enfrentar uma nova epidemia

Publicado em 18 de Setembro de 2025 às 03:46

Públicado em 

18 set 2025 às 03:46
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

O Brasil enfrenta uma nova preocupação na área da saúde pública: a febre Oropouche. O Oropouche, como foi classificado pelo Ministério da Saúde, é uma doença causada por um arbovírus (vírus transmitido por artrópodes), o Orthobunyavirus oropoucheense (OROV), que foi isolado pela primeira vez no Brasil em 1960, a partir de amostra de sangue de um bicho-preguiça capturado durante a construção da rodovia Belém–Brasília. Desde então, casos isolados e surtos foram relatados no Brasil, principalmente nos estados da região Amazônica. Também já foram registrados casos e surtos em outros países das Américas Central e do Sul.
A doença viral é transmitida por insetos como o maruim (conhecido também como mosquito-pólvora), que passou a se espalhar rapidamente por diversas regiões do país a partir de 2024, relacionado aos impactos das mudanças climáticas.
O vírus OROV, que até há pouco tempo se concentrava na região amazônica, vem avançando para estados do Sudeste e outras regiões do país. Em 2024, mais de 12 mil casos foram confirmados no Brasil. Até agosto de 2025, o número já ultrapassa 11.900 notificações; desses, mais de 6.300 foram notificados no Espírito Santo, estado que concentra o maior número de notificações.
Em dezembro de 2024, o Espírito Santo recebeu o evento nacional “Colóquio sobre Emergência de Oropouche na Região Extra-Amazônica”, que reuniu profissionais de saúde de instituições de pesquisa e de estados brasileiros que vêm registrando casos da doença em seus territórios.
Sob a organização da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, do Ministério da Saúde, com o apoio do Governo do Espírito Santo, por meio da Secretaria da Saúde (Sesa), o encontro aconteceu com o objetivo de debater vigilância e pesquisas relacionadas ao Oropouche, a fim de avaliar ações de vigilância clínico-laboratorial, virológica e entomológica, além de compartilhar experiências e aprimorar a vigilância de óbitos relacionados à doença.
Estive em Alfredo Chaves em agenda técnica, onde apresentei e discuti com a Secretaria Municipal de Saúde os dados do estudo internacional “Global case series of Oropouche virus disease during the 2023–2024 outbreak”, que coordeno pela Ufes em parceria com o ISGlobal/Barcelona, a FMT-HVD e o LabEpi/UFES, com apoio da prefeitura.
O município integra oficialmente a pesquisa, que tem por objetivo orientar a vigilância e as políticas públicas diante da expansão do Oropouche, já com registro de casos graves, transmissão vertical e primeiros óbitos no país. Durante a visita, alinhamos fluxos de notificação e investigação, definimos estratégias de controle vetorial e pactuamos ações de comunicação de risco. A reunião contou com equipe interdisciplinar e com pesquisadores, que atualizaram achados de campo em colaboração com Fiocruz, Sesa e Embrapa.
O Oropouche provoca sintomas muito parecidos com outras arboviroses, como dengue e chikungunya. Entre eles febre alta, dores no corpo e nas articulações, náuseas, vômitos e diarreia e, em alguns casos, os sintomas retornam dias após o desaparecimento inicial, o que dificulta ainda mais o diagnóstico.
Mosquito maruim, que transmite a febre oropouche
Maruim, que transmite a febre oropouche Crédito: Dive/Divulgação
O Ministério da Saúde, preocupado com o aumento de casos, lançou um painel para acompanhamento em tempo real das notificações. Apesar de geralmente não ser fatal, a doença pode ter complicações graves, como meningite asséptica e, em gestantes, até risco de aborto ou malformações, o que inclui as gestantes no grupo de maior risco da doença.
Há desafios importantes no combate à doença. Entre eles, destaco: a falta de testes laboratoriais específicos para Oropouche em muitas cidades; a subnotificação de casos leves, que muitas vezes são confundidos com outras viroses; o pouco preparo de estados que não tinham histórico da doença; a deficiência no controle dos vetores, especialmente os maruins, que se proliferam em locais com lixo, matéria orgânica e vegetação densa; e a ausência de vacina ou tratamento específico – hoje, os pacientes recebem apenas medicamentos para aliviar os sintomas.
Como não existe vacina, a prevenção ainda é a melhor arma contra o Oropouche. A orientação é evitar a proliferação dos insetos, eliminando focos de acúmulo de lixo e matéria orgânica, além de usar roupas compridas, especialmente em áreas de mata ou com presença de mosquitos.
Não há, até o momento, comprovação da eficácia do uso de repelentes contra o maruim. Porém, sua utilização é recomendada, principalmente para proteção contra outros mosquitos, como, por exemplo, Culex spp. (pernilongo) e Aedes aegypti (mosquito transmissor de dengue e chikungunya).
Diversas pesquisas científicas estão acontecendo no Espírito Santo para que possamos ter mais informações sobre formas de prevenção, como o uso de dedetização em áreas com grande concentração do mosquito, e também quanto ao uso de repelentes. Outras pesquisas estão se concentrando na melhoria do cuidado com pessoas, para diminuir os casos de gravidade da doença.
É de fundamental importância que, ao apresentar febre repentina acompanhada de dores intensas no corpo, a pessoa procure um posto de saúde e informe se esteve em regiões com casos confirmados da doença. Isso agiliza o diagnóstico e a suspeita de que possa ser Oropouche.
Com a combinação de expansão geográfica, aumento de casos e infraestrutura ainda despreparada, há sempre o temor de que possamos enfrentar uma nova epidemia, o que pode dar chance de o vírus sofrer mutações e provocar doença mais grave ou deixar mais sequelas.
Ao lado das ações preventivas, o investimento em pesquisas científicas é fundamental para desenvolver novas abordagens de enfrentamento. Esses estudos, que estão em andamento no ES, buscam aprimorar o controle dos vetores, avaliar a eficácia de repelentes e da dedetização, além de melhorar o cuidado destinado aos pacientes, especialmente na diminuição de casos graves e sequelas. A união entre prevenção e ciência é, portanto, o caminho para um enfrentamento mais eficiente do Oropouche no futuro.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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