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Preocupação global

Na era dos novos vírus, investir na saúde é investir na economia

É uma questão transdisciplinar que envolve decisões políticas em áreas como educação, moradia, meio ambiente, segurança alimentar e tantas outras que se entrecruzam e que tem a saúde e a vida humana como fim

Publicado em 20 de Setembro de 2022 às 00:15

Públicado em 

20 set 2022 às 00:15
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

O mundo precisa aceitar uma verdade  inconteste. Estamos vivendo uma era na qual os vírus ocuparão lugar de destaque na agenda governamental e na organização do estilo de vida das pessoas. A pandemia da Covid-19 foi um alerta global sobre uma realidade que cientistas,  estudiosos de políticas públicas e pesquisadores de saúde coletiva do mundo inteiro já anunciavam.  
O mundo sofrerá as consequências da destruição ambiental acelerada, do aquecimento global, da falta de financiamento em saúde e das políticas públicas de caráter mais individual do que coletivo. Bill Gates, o fundador da Microsoft e um dos homens mais ricos do mundo, alertou para os riscos de novas pandemias e a necessidade de se aumentar os investimentos em pesquisas nessa área, especialmente no desenvolvimento de vacinas. 
Ao afirmar que “a nova pandemia vai ser mais mortal do que a do coronavírus”, Gates nos permite compreender que o problema não pode ser considerado apenas na perspectiva e na lógica da Saúde. Pandemias afetam as economias e colocam em risco  os negócios, independentemente das áreas nas quais estejam inseridos.
Bill Gates está focado na questão do desenvolvimento de pesquisas diretamente ligadas à saúde e à inovação em vacinas e em medicamentos. Mas o problema precisa ser enfrentado também sobre outras perspectivas, considerando ser uma questão transdisciplinar que envolve decisões políticas em áreas como educação, moradia, meio ambiente, segurança alimentar e tantas outras que se entrecruzam e que tem a Saúde e a vida humana como fim.
Nesse sentido, sustenta-se aqui a afirmativa de que a humanidade vive sob o risco de que, se nada for feito para frear o modo como nos organizamos em sociedade, a maneira como nos relacionamos com o meio ambiente e com nossos semelhantes e a forma como nos preparamos para o futuro no que diz respeito às políticas públicas em geral e de saúde em particular, viveremos de pandemia em pandemia. Algumas  questões me parecem relevantes  para uma análise objetiva do problema: 
  1. Há uma impossibilidade real de que decisões em saúde possam ser tomadas isoladamente de forma imediata com vistas a impedir a rápida propagação dos vírus.  Isso implica em aceitar que é preciso planejamento global da saúde em articulação  com organismos internacionais  e  interface com  outras políticas internas e externas; 
  2. Nossa total  dependência de investimentos  em políticas de saúde que contemplem ações de atenção à saúde coletiva, com  prevenção de doenças,  promoção da saúde e tratamento das doenças e seus agravos. Isso demanda investimento público compatível com a dimensão do problema a ser enfrentado;
  3. Nesse sentido, investimentos no  desenvolvimento de vacinas, observando que isso  demanda um tempo lógico e cronológico necessário para que todos os protocolos de pesquisa sejam obedecidos; 
  4. As desigualdades sociais que impõem a muitos uma condição de existência não compatível com medidas de isolamento e prevenção de contágio exigem investimento em garantia do Direito à moradia digna, com condições de salubridade e dignidade;
Enfim, é preciso reconhecer que a saúde precisa ser pensada em uma perspectiva global, compartilhada, com valorização dos organismos internacionais  e não apenas com políticas internas. A sobrevivência da vida humana no planeta  pode estar ameaçada por esse fenômeno de propagação sem o devido controle dos vírus e  por nossa incapacidade de pensar o problema de maneira ampliada e compartilhada. Nesse sentido, é necessário lembrar que economia depende da Saúde e a Saúde depende da economia.  Investir em Saúde é investir em economia.  Não teremos saúde para alguns se não lutarmos para que todos tenham acesso às mesmas condições  para obtê-la. 

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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