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Fim ao tabu!

Saúde pública: é preciso combater a pobreza menstrual

De modo parecido com as outras categorias de pobreza, a pobreza menstrual interfere diretamente na qualidade de vida da mulher

Publicado em 23 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

23 jul 2021 às 02:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

Distribuição para meninas
No Brasil, uma em cada cinco adolescentes não tem acesso ou enfrenta sérias dificuldades na compra dos itens básicos de higiene feminina, como os absorventes Crédito: Freepik
A menstruação faz parte do ciclo reprodutivo feminino. Mensalmente, o útero conta com o endométrio para aninhar um possível embrião. Porém, quando não ocorre a fecundação, o endométrio, um tecido que reveste internamente o útero, acaba por ser naturalmente descartado pelo corpo, ocorrendo a menstruação. Ou seja, a menstruação é algo natural, trata-se da descamação do endométrio.
Entretanto, ainda assim, em pleno século 21, muitos são os tabus e as dificuldades vivenciadas por garotas e mulheres em idade reprodutiva, resquícios de uma sociedade tipicamente construída com uma visão machista. Se não bastassem os transtornos que acompanham a menstruação (como dores pelo corpo, as famosas cólicas, náusea, indisposição, irritabilidade e outras mudanças significativas de humor), as mulheres ainda sofrem com mais uma forma de pobreza: a pobreza menstrual.
De modo parecido com as outras categorias de pobreza, a pobreza menstrual interfere diretamente na qualidade de vida da mulher, a despeito de a saúde e o bem-estar serem inequívocos direitos da personalidade, inatos à condição humana. Estima-se que 30% da população brasileira menstrua regularmente e o mais alarmante é que uma em cada cinco adolescentes não tem acesso ou enfrenta sérias dificuldades na compra dos itens básicos de higiene feminina, como os absorventes.
Até mesmo entre o público adulto há muita vergonha ao se abordar o tema da menstruação, o que ganha ainda mais relevância quando se trata de garotas adolescentes. Muitas meninas em idade fértil acabam por abandonar a escola e até mesmo outras atividades usuais, já que não têm como comprar absorvente e ficam no receio de menstruar. A pobreza menstrual leva muitas meninas ao isolamento, afasta-as de oportunidades e dificulta o acesso aos serviços especializados de atenção à saúde da mulher.
Para a Organização das Nações Unidas (ONU), trata-se de uma questão de saúde pública e de direitos humanos o acesso à higiene menstrual. No entanto, esse direito não tem sido alcançado por todas as mulheres, principalmente quando se leva em consideração a retomada da alta inflacionária no Brasil. Se muitas pessoas estão enfrentando graves obstáculos para comprar comida, pagar o gás ou a conta de energia elétrica, muito maior é o abismo que separa as meninas pobres de um pacote de absorvente.
Diante desse cenário, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 1.702/2021, cujo objetivo é instituir a Política de Conscientização acerca da Menstruação e de Universalização do Acesso a Absorventes Higiênicos no âmbito do Sistema Único de Saúde (Menstruação sem Tabu). Em Vitória, desde o ano passado, há a lei nº 9.613, de autoria do ex-vereador Roberto Martins, que dispõe sobre o fornecimento de absorventes menstruais nas escolas públicas do município, o que foi um grande avanço civilizatório na busca da dignidade.
Todavia, como as escolas permaneceram fechadas por um bom tempo durante a pandemia, as vereadoras Camila Valadão e Karla Coser enviaram uma indicação à prefeitura da Capital para que absorventes fossem distribuídos com as cestas básicas àquelas famílias em situação de vulnerabilidade social.
Aliás, falando nas vereadoras Camila Valadão e Karla Coser, elas têm sido provas vivas de que, muitas vezes, as vozes machistas querem calar as mulheres e diminuir a importância do papel feminino na vida pública e na política.
Muito provavelmente, se nós homens também menstruássemos, seria mais fácil o acesso a itens como absorventes, talvez até mesmo com isenções tributárias. Saúde não pode ser objeto de tabu!

Caio Neri

É graduado em Direito pela Ufes e assessor jurídico do Ministério Público Federal (MPF). Questões de cidadania e sociedade têm destaque neste espaco.

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