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Atualidade

Pra não dizer que não falei de esperança

Então para que serve a utopia, morada e guardiã da esperança?  O escritor  Eduardo Galeano, ele próprio, responde: “Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”

Publicado em 29 de Março de 2022 às 11:04

Públicado em 

29 mar 2022 às 11:04
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Coisa de muito desalento é ver que, cada vez mais, as pessoas se queixam de desesperança. Não é para menos. A gente acreditava que o século XXI, com todos seus avanços nas ciências e nas tecnologias, poderia finalmente materializar nossas mais caras ilusões de saúde, paz e prosperidade. Mas o que acontece hoje é o contrário. A esperança, essa fadinha verde da poesia, perdeu as asas e a credibilidade.
Muito se diz sobre a esperança. Para os religiosos, é a segunda das virtudes teologais, que vêm no pacote divino insuflado na alma. Para os otimistas, uma convicção de que tudo vai dar certo. Para os crédulos, é a estrada que leva ao lugar de felicidade e harmonia entre as sociedades e os seres na Terra.
Na mitologia grega, a esperança foi o único dom de bondade que os deuses encaixotaram entre todas as desgraças do mundo: guerras, discórdias, doenças, males do corpo e da alma etcetera. Pandora, a primeira mulher, não conseguiu conter a curiosidade, resolveu bisbilhotar e abriu a caixa, soltando todos os malefícios. Quando se arrependeu, era tarde. Fechou a caixa depressa, mas a esperança ficou presa no fundo.
Fica bem evidente que essa historinha não esconde a má vontade com que a cultura ocidental desde os primórdios cerca os seres femininos, tratando as mulheres como a causa de todos os malefícios. No entanto, fica evidente, também, que a esperança permanece presa no fundo da caixa, em um espaço que é motivo de desejo e devaneio, mas é sempre impossível de acesso. Esse mesmo espaço a que os filósofos chamam utopia.
Não sei quanto a vocês, para mim, porém, a melhor definição de utopia cabe naquela frase que o escritor uruguaio Eduardo Galeano ouviu do cineasta argentino Fernando Birri e registrou no livro “As palavras andantes”: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei”.
Então para que serve a utopia, morada e guardiã da esperança? Galeano, ele próprio, responde: “Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Ou seja, a desesperança cai como uma luva na alma, nestes tempos de angústia e de medo que atravessamos. Porém, utopia é sonho. E desanimar não é justo para com os sonhos de cada um.
Por essa razão, sempre que escuto as queixas de desesperança, eu me lembro daquela canção em que a maravilhosa Elis Regina fala da esperança equilibrista, que dança na corda bamba, pode se machucar se cair. Mesmo assim não desiste, pois sabe que o show deve continuar.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve quinzenalmente, às tercas-feiras, sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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