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Mundo

Donald Trump continua atuando com motivações imperiais

Intuo que o modo imperador de Trump empareda os membros da Aliança Oidental e o Brasil. Mas deverá valer a lógica do bambu: enverga mas não quebra

Publicado em 09 de Agosto de 2025 às 03:30

Públicado em 

09 ago 2025 às 03:30
Antônio Carlos de Medeiros

Colunista

Antônio Carlos de Medeiros

O presidente dos Estados Unidos tem duas motivações centrais.
A reconstrução do império americano como líder do ocidente. E o fortalecimento da indústria americana e do ambiente pró-negócios nos EUA. Ou seja, o slogan Maga (Make America Great Again). E a máxima do “business as usual”. O poder do dinheiro na cultura americana.
Como corolário dessas duas motivações, Trump já trabalha para ter êxito nas eleições americanas de 2026. Renovação da Câmara Federal e de 1/3 do Senado. Para ele, é crucial manter a maioria no Congresso, ainda que reduzida.
tarifaço ao Brasil é subproduto desses dois alvos estratégicos e políticos de Trump.
Com o forte componente da “questão Bolsonaro”. Fazer do Brasil uma comarca americana e ampliar o alcance global da direita.
É como se o Brasil fosse uma espécie de projeto-piloto.
O declínio do império americano e do ocidente foi constatado há muitos anos por historiadores brilhantes. Assim como a ascensão da China e a chegada do chamado século asiático.
Nail Ferguson chegou a uma constatação factual já em 2009 e 2010 – em seu livro “Civilização – ocidente x oriente”.
Para ele, seis sistemas de instituições fomentaram a hegemonia do ocidente: a competição; a ciência; os direitos de propriedade e o estado de direito com governo representativo; a medicina; a sociedade de consumo; a ética do trabalho. A essência está nas instituições.
Mas na primeira década do século XXI Ferguson observou que “estamos chegando ao fim de 500 anos de supremacia ocidental”.
E mostrou que o declínio do império americano se devia a “três déficits fatais no cerne do poder” dos EUA: déficit da força militar, déficit de atenção do povo e déficit financeiro.
Ao longo dos anos a sociedade de consumo e a manutenção do complexo industrial militar resultaram em escalada da dívida pública dos EUA. E na crise de identidade, isto é, o déficit de atenção do povo americano na própria civilização ocidental e americana – observa Ferguson. Redução do sentimento de pertencimento.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o anúncio das tarifas recíprocas para diversos países
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o anúncio das tarifas recíprocas para diversos países Crédito: MARK SCHIEFELBEIN/AP
Aí veio o “Yes, we can” de Obama. E o Maga de Trump. Ambos na direção de renovar a ordem imaginada que move a sociedade e a cultura americana.
Mas, desde a primeira eleição de Trump, o Maga resultou na divisão política e na polarização do povo americano. Republicanos versus democratas. Atingiu a ordem liberal e democrática americana.
Reeleito com ampla maioria, Trump estica a corda do movimento Maga e desafia tanto a Aliança Ocidental quanto a China e os países orientais. Aprofunda e espalha os traços do autoritarismo da Era Trump nos EUA.
No Brasil, com a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, espera-se nova escalada de ataques. Com provável interferência no processo político eleitoral de 2026.
Ao mesmo tempo, já agora, tanto o fator Bolsonaro quanto a narrativa da defesa da soberania do presidente Lula impulsionam uma nova escalada da polarização política no país. Tudo que a sociedade não quer mais. Tudo que afasta mais ainda a sociedade brasileira dos três poderes constituídos.
Guerra permanente nas redes sociais. Qual será a resultante?
Intuo que o modo imperador de Trump empareda os membros da Aliança Oidental e o Brasil. Mas deverá valer a lógica do bambu: enverga mas não quebra.
Ao mesmo tempo, intuo que as potências emergentes do século asiático – China e Índia principalmente – não se vergarão ao Trump imperador.
Vem daí um “cada um por si”, até que a lógica de Trump da guerra com todos possa resultar em efeito bumerangue e, quem sabe, em busca do multilateralismo a médio prazo.
Mas nesta altura vale outra intuição como hipótese: as plutocracias ocidentais e orientais deverão convergir para uma convivência entre ocidente e oriente.
Mediada pela nova guerra de dissuasão da Era da IA e dos drones.
E pela lógica do capitalismo de plutocratas liderado pelos EUA e pela China. A convergência em curso do capitalismo iliberal americano com o capitalismo político chinês. Capitalismo sem rivais.
Quanto ao Brasil, vale a seguinte reflexão como hipótese para 2026.
  1. A plutocracia vai agir para a convergência em torno da centro direita e/ou;
  2. Vai estimular o candidato Lula a buscar uma Frente Ampla de verdade;
  3. Tudo mediado pelo fato de que o povo não tolera mais quatro anos de polarização e vai acelerar a alienação eleitoral (brancos, nulos e abstenções).
Neste cenário, os 10% do eleitorado nacional identificado pela Quaest como prováveis votos decisivos nas eleições de 2026 vão ganhar status de tertius.
Ou seja, os caminhos do centro do espectro político e da moderação, com avanço da cosmovisão liberal social.
A soberania reversa: do povo para o poder e não do poder para o povo. Uma espécie de “Yes, we can” brasileiro.

Antônio Carlos de Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços nessas áreas

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