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Crônica

Pequeno dicionário para o ano que começou, edição 2026

Dispensar excessos, discursos autocentrados, invenções de utilidade duvidosa e o trio coentro-salsinha-cebolinha

Publicado em 11 de Janeiro de 2026 às 04:20

Públicado em 

11 jan 2026 às 04:20
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

A
Andar com fé, que a fé você sabe
Aprender a ser simples, todos os dias
Às vezes o melhor mesmo é deixar pra lá
B
Bordar a vida e quem sabe uns papéis
Baixar a guarda
Balanço, movimento, pausa
C
Cuidar dos afetos, das finanças e do fígado
Cuidar de si, sem desculpa
Contar até três

D

Dispensar excessos, discursos autocentrados, invenções de utilidade duvidosa e o trio coentro-salsinha-cebolinha
Das coisas desimportantes
Diálogo, destralhe e dormir bem não saem de moda

E

Entra ano sai ano, manter a tradição
Egocentrismo cansa
Editar de vez em quando, porque sim

F

Firme para que não escape, delicado para que não sufoque, uma vez mais
Formas de voltar para casa: a poesia, o descanso, certas presenças, seguir o sol
Frases, parágrafos, páginas

G

Gateira futebol clube
Gelo, gengibre e grafite 1.9 outra vez
Grandes histórias podem começar pequeno

H

Habitar a calma
Haja tempo
Honrar a nós mesmas, amar nossos corpos, como defendia bell hooks - assim mesmo, em minúscula, como ela preferia, para priorizar a atenção nas ideias e não na figura individual, para subverter a hierarquia acadêmica, para homenagear a bisavó

I

Ilha, vento, sol
Inspiração como construção diária
Inflamação exige cuidado constante

J

Juizado das minúsculas causas
Jamais se medir pela régua alheia jamais se diminuir para caber no pote dos outros
Jazz, samba, bossa nova

K

Kit Kat para adoçar a vida
Kind of Blue para as madrugadas, como sempre
Kant tinha razão quando dizia que podemos julgar o coração de um homem pela forma como ele trata os animais.

L

Lembrar para não esquecer: às vezes você não está conseguindo resolver um problema porque não é problema seu.
Li e concordo plenamente que dentro de nós estão nosso fôlego, nossas verdades e nossos anseios — eles são a canção que devemos cantar
Lô Borges se foi, mas deixou a rota: há Sol e chuva na sua estrada, mas não importa, não faz mal, você ainda pensa, e é melhor do que nada
[Tudo que você podia ser]

M

Melodia ano 9 e Miles ano 3
Manter a tecnologia como amiga, mas não ser refém do algoritmo
Mágoa antiga não leva a nada

N

Nunca é demais lembrar que nem tudo é sobre a gente
Não há boa intenção em defender apenas o que convém ao próprio ego
Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista, como Angela Davis falou

O

O calendário e a canção sabem das coisas. Nada como um tempo após um contratempo, nada como um dia após o outro dia
O rio abaixo do rio
Ocupar o próprio corpo, sejam quais forem os dons e as limitações

P

Perder a conta dos anos faz bem, perder o rumo nem tanto
Parar para ver o céu faz bem, parar no tempo nem tanto
Preparar o futuro faz bem, viver o presente faz bem igual

Q

Quanto tempo cada coisa leva?
Que limites você não negocia?
Qual a hora certa de botar fim numa dança?

R

Renovar o pacto com a vida, apesar dos que perdemos ao longo do caminho
Repetir sempre que preciso, porque sim: potência nos começos, atenção na execução, cuidado no arremate, capricho no avesso
Rivalidade entre mulheres não vira
[Perdemos todas, mesmo quando parece que algumas venceram]

S

Sem perder a ternura
Sem perder a linha, dentro do possível
Sem perder a esperança - é o que nos resta nos dias difíceis

T

Tem sempre alguma coisa que salva os dias difíceis, nem que seja a obrigação de trocar a ração do gato
Trabalhar pra gostar do que vê
Todo ano, o ano todo: tolerância, menos com os intolerantes

U

Um preconceito que se foi: calça jeans
Um modo de ir: com calma
Um jeito de estar no mundo: escrevendo

V

Von Hunty, Rita: A gente só é capaz de fazer aquilo que a gente é capaz de imaginar
Valorizar os bons encontros e a vitamina D
Voltar para nós mesmos também

W

Wi-fi facilita
Wafle e outras delícias de café da manhã
Woolf, Virginia: Não se acha a paz evitando a vida

X

Xícaras antigas ainda amo
Xeque-mate, gim tônica, Lady Laura
Xodó, cafuné, dengo: palavras que eu ainda gosto de graça

Y

Y nunca facilita a vida de um dicionário

Z

Zona de conforto, como em 2022
Zelo com a gente mesmo a gente repete, porque sim
Zarpar de onde não te cabe é o que há

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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