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Crônica

Como o sonho, a crônica não acabou, pelo menos ainda

Numa coisa concordo com o autor que diz que a crônica se aproxima do fim: a ausência da crônica nos afasta dos acontecimentos mínimos, nos deixa na presunçosa companhia da ideia ou, pior ainda, na extravagante presença da polêmica

Publicado em 16 de Junho de 2024 às 02:00

Públicado em 

16 jun 2024 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Há 20 anos tenho me permitido teimar com o autor que diz que a crônica acabou, que pouco a pouco abandona o mundo, definha, incapaz de seduzir os algoritmos, esquecida entre páginas urgentes, novidades eufóricas e notícias ruidosas.
Talvez ele tenha razão a respeito dos algoritmos, aquela sequência de instruções matemáticas que influencia afetos, define o bombardeio de conteúdos na internet, impõe ignorâncias e escolhe por nós, até quando achamos o contrário.
Quanto à crônica, quero crer que não; que o autor errou ao dizer que o gênero se aproxima do fim, que seu tempo é outro, que há um descompasso de ritmos e que a crônica, devota da lentidão, não sobrevive às exigências da produtividade.
Prefiro defender o tombamento do mais imaterial dos gêneros, um fazer intocável como a panela de barro de Goiabeiras, o queijo de Minas, o samba de roda do Recôncavo Baiano, o Círio de Nazaré e o frevo de Pernambuco, inscrita no livro de tombos e celebrada como as construções mais valiosas, livre de estragos e avarias.
Desta forma estariam a salvo o passarinho que não tem fábricas como o conde, mas sabe cantar e voar; a moça daquela noite em que chovia a bules de chá; a entrevistadora que se espanta quando a entrevistada diz que gosta de gente - não de toda gente, mas de gente que não se chateia à toa nem chateia a gente; Dindi e as agruras de certos dias.
Seriam guardados e valorizados para todo o sempre as mulheres que passam, os estudantes que passam, as comerciárias que passam, os malandros que passam e todos os outros que passam rumo à Praça Costa Pereira. Aquela deliciosa defesa por pratos sem cheiro verde [por favor] seria preservada, como também a aventura do garoto que não sabia o que era dormir – e o avô tentava explicar sobre quando a noite chegava, as pessoas vestiam pijama, olhavam a televisão e às vezes sonhavam.
Ipê rosa na Praça Costa Pereira, em Vitória
Ipê rosa na Praça Costa Pereira, em Vitória Crédito: Fernando Madeira
Numa coisa concordo com o autor que diz que a crônica se aproxima do fim, sem desespero nem cólera nem alarde, na timidez que a caracteriza. Concordo que a ausência da crônica nos afasta dos acontecimentos mínimos, nos deixa na presunçosa companhia da ideia ou, pior ainda, na extravagante presença da polêmica.
Concordo com ele: sem a literatura mansa desprovida de ambições e ganâncias, os sonhadores e os distraídos estarão reféns dos extremos, sem liberdade e leveza, sem a melancolia vaga das palavras levemente infelizes.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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