Com o primeiro ano de seu segundo governo chegando ao fim, o governador Renato Casagrande (PSB) faz o que parte do mercado político capixaba interpretou como um aceno de paz dirigido a Paulo Hartung, buscando uma trégua política com o seu antecessor no cargo, atualmente sem mandato. Em entrevista à coluna da jornalista Míriam Leitão, de “O Globo”, publicada nesta terça-feira (17), Casagrande citou Hartung duas vezes, nominalmente.
O fato em si poderia ser tomado por banal, não fosse por um motivo: Casagrande tem por regra não citar Paulo Hartung pelo nome em discursos e entrevistas. Dando um depoimento pessoal, digo que conversei com o governador diversas vezes ao longo do ano, escutei-o em outros tantos discursos, e posso assegurar que não me lembro de ter ouvido esse nome próprio brotar espontaneamente de sua boca. Ele podia até falar em “meu antecessor”, em “governo passado” etc., mas “Paulo Hartung” jamais.
Mas não é só isso. Mais do que as citações a Paulo Hartung, o que causa surpresa é a maneira como Casagrande se refere ao ex-governador. As menções são positivas, elogiosas até, reconhecendo-lhe méritos administrativos e feitos concretos do governo passado.
No texto de Míriam Leitão, a primeira citação de Casagrande ao antecessor aparece no discurso direto mesmo, quando o atual governador fala das PPPs do saneamento básico, que estão viabilizando a expansão da rede de coleta e tratamento de esgoto em cidades da Grande Vitória: “No meu governo passado [2011-2014] fiz a PPP do saneamento da Serra. O Paulo Hartung fez a PPP do saneamento de Vila Velha. Agora farei a de Cariacica. Isso tem dado bons resultados”.
A segunda menção de Casagrande a Hartung aparece no discurso indireto (o da jornalista), quando o governador destaca a expansão das escolas em tempo integral:
“Na educação”, registra Míriam, “Casagrande diz que continua a obra de Hartung com mais escolas em tempo integral. O estado é o segundo do Ideb [no ensino público]. Até 2024, terá metade de suas escolas em tempo integral.”
Na coluna, Míriam também afirma que o Estado vai investir R$ 2 bilhões em 2020 e que, nesse total, segundo o próprio Casagrande, há “inclusive recursos de superávit de anos anteriores” – ou seja, superávit feito por Hartung.
Intitulada “Nos fundos, o segredo do ES”, a coluna de Míriam aplaude a atual situação fiscal do Espírito Santo – bastante celebrada por ela durante o último governo de Hartung (2015-2018) –, elogia a continuidade dada a boas ações em terras capixabas e destaca medidas adotadas por Casagrande neste ano, como a criação do Fundo Soberano, do Fundo de Infraestrutura e de um fundo garantidor de parcerias público-privadas (PPPs).
Míriam abre a coluna afirmando que “o Espírito Santo prepara o futuro dos capixabas com investimentos, fundos e reformas”. E conclui dizendo que “o ES é a prova de que o ajuste fiscal vale a pena”. Segundo ela, a chave está na continuidade administrativa – uma continuidade que, segundo ela, é ressaltada pelo próprio Casagrande:
“Essa visão de longo prazo e do ajuste fiscal como parte de um projeto de investimentos é raro no país, mas tem sido presente no Espírito Santo, o único estado a receber nota A do Tesouro Nacional. Um dos segredos, segundo Casagrande, é a continuidade administrativa.”
Espera, espera um pouco, para tudo: Casagrande então admite que seu governo é de “continuidade administrativa” ao de Hartung? Ele está mesmo fazendo um aceno político ao ex-governador? Para tirar isso a limpo, conversamos com o próprio governador, às 21 horas desta terça. Um spoiler: nada de “trégua”, nada de “aceno”, nada de “gesto de conciliação”. Enganou-se quem leu assim suas declarações. O governador deixa bem claro que elas não passaram perto de ter esse objetivo. Por que, então, o reconhecimento público a Paulo Hartung? “Porque eu sou diferente de Paulo Hartung”, responde Casagrande. “Eu sei reconhecer aquilo que o Estado teve de continuidade nos últimos anos. E sei separar aquilo que é bom daquilo que é ruim.”
Ah, bem, tudo de volta ao normal... Confira abaixo, na entrevista completa:
Na conversa com Míriam Leitão, o senhor citou mesmo Paulo Hartung, pelo nome, reconhecendo parte da obra dele, como consta no texto da colunista?
Sim.
Por quê?
Porque eu sou diferente de Paulo Hartung. Eu sei reconhecer aquilo que o Estado teve de continuidade nos últimos anos. E sei separar aquilo que é bom daquilo que é ruim. Diferentemente daquilo que sofri em 2015. O Estado teve, a partir de 2011 [primeiro ano do primeiro governo Casagrande], um processo que permitiu ao Espírito Santo ter nota máxima do Tesouro Nacional. E Hartung deu continuidade a isso. O Espírito Santo tem duas políticas exitosas e que tiveram continuidade: uma é a de ajuste fiscal, a outra é a de educação. Desde 2011, a nossa nota no Ideb tem curva crescente. E eu tenho que reconhecer, então, que a continuidade nessas duas áreas foi muito positiva para o Espírito Santo. Assim como tenho que reconhecer que aquilo que não teve continuidade foi negativo.
O que, por exemplo?
Ele não deu continuidade às nossas políticas na área de segurança, saúde e infraestrutura.
Mas, na sua entrevista, o senhor só destaca a primeira parte: a das políticas exitosas que tiveram continuidade. Por quê?
Porque ela me perguntou sobre a primeira parte. Aquilo que é positivo a gente tem que destacar e reconhecer. Aquilo que é negativo a gente tem que destacar com franqueza quando necessário. A coluna ficou ótima. Ela [Míriam] traduziu bem a nossa conversa.
Então a sua entrevista não foi um aceno de paz nem de conciliação para Hartung?
Não tem esse objetivo. Não quero briga com ninguém. Não gosto de brigar. Só brigo quando sou chamado e provocado. Não tem nenhum aceno, nem de briga, nem de paz. É a realidade da conversa, do assunto que tratamos. Procuro ser o mais justo possível nas minhas avaliações.
Mas o senhor considera mesmo, como Míriam Leitão anotou, que seu governo é de “continuidade administrativa” em relação ao de Paulo Hartung?
Nessas duas áreas, sim: educação e política fiscal, que por sua vez foram continuidade dele em relação ao meu primeiro governo. Destaquei para a Míriam a importância da continuidade e da não ruptura administrativa. Nas áreas onde não houve ruptura política, nós avançamos. Naquelas onde houve ruptura, estaríamos mais adiante do que estamos hoje, se não tivesse havido ruptura.
Quais os méritos que o senhor reconhece no governo do seu antecessor?
Não preciso ficar avaliando os méritos do meu antecessor. Quando digo que nessas duas áreas houve continuidade dele no que eu estava fazendo, nessas duas áreas eu reconheço mérito de continuidade. E faço minhas críticas ao não reconhecimento daquilo que eu fiz e à não continuidade daquilo que fiz em algumas áreas.
O senhor e Paulo Hartung se falaram recentemente?
Não. A última vez em que nos falamos foi em 2014.