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Curiosidade

O roubo centenário de coroa e joias de santa no Convento da Penha

Bandidos invadiram a igreja de madrugada, levando anéis, pulseiras, colares e a coroa que enfeitavam a imagem de Nossa Senhora da Penha

Publicado em 14 de Junho de 2025 às 17:38

Aline Nunes

Publicado em 

14 jun 2025 às 17:38
Ilustração de Nossa Senhora da Penha, feita com Inteligência Artificial
Ilustração de Nossa Senhora da Penha, feita com Inteligência Artificial Crédito: Arte de Camilly Napoleão/Adobe Firefly
Prestes a completar 100 anos, um roubo de joias e da coroa de Nossa Senhora no Convento da Penha causou comoção entre a população capixaba e ganhou repercussão nacional, ocupando quase uma página inteira da edição de O Globo de 12 de outubro de 1925. A história é tão antiga que o jornal A Gazeta só surgiria três anos depois, em setembro de 1928, e nem mesmo no santuário há registro sobre o episódio.  
Mas o caso está contado em detalhes na publicação do Rio de Janeiro: os bandidos entraram de madrugada no Convento e roubaram anéis, colares, pulseiras, manto e a coroa cujo prejuízo foi estimado em 500 mil réis — moeda da época, equivalente a pouco mais de R$ 60 mil atualmente — sem contar o valor histórico. Os criminosos também levaram dinheiro em espécie depositado no santuário e quebraram um dos braços da imagem da santa.  
"A segurança com que agiram os salteadores dá a impressão de que eram perfeitos conhecedores dos hábitos que os religiosos daquele retiro espiritual praticam as cerimônias litúrgicas. Essa observação era indispensável para a perfeita segurança da arriscada empresa a que se teriam de entregar quando a ambicionada oportunidade se lhes deparasse. O momento desejado surgiu, afinal, com as festividades religiosas que no corrente mês são celebradas em louvor de sua padroeira", descreve o jornal. 
Reprodução de página do acervo de O Globo sobre o roubo Crédito: Reprodução
Conforme pontuado em O Globo, no dia 4 de outubro daquele ano, vários lugares do país celebravam Nossa Senhora da Penha, inclusive a "pacata Vila Velha do Estado do Norte", que, segundo o jornal, acordou sob o repique dos sinos anunciando as festividades. Por ocasião dessas festas, a imagem da padroeira do Espírito Santo, uma relíquia do século XVI, passava por um tratamento especial.
"Os hábitos são substituídos por outros, de gala; os paramentos são trocados; os ornamentos dos dias vulgares cedem lugar às joias de grande valor, intrínseco e extrínseco, pois que, entre elas, se contam algumas que datam do Brasil colonial. Os ladrões por certo que estavam em observação e a eles não podia escapar todo aquele esplendor de riqueza que a santa ostentava", observou o jornalista de O Globo. 
Na reportagem, constatou-se que, enquanto os fiéis estavam fazendo orações na igreja, os bandidos se concentravam no planejamento do roubo, que só aconteceria após terminada a festa. "Os ladrões, aproveitando o silêncio da madrugada, resolveram pôr em prática os seus propósitos. Assim, subiram ao convento e, após arrombar uma das portas do templo, ali penetraram, encaminhando-se logo para o nicho que encerrava a milagrosa padroeira."
O crime só foi descoberto na manhã seguinte, quando o funcionário responsável pela vigilância da igreja, que dormiu a noite toda em um quarto próximo à sacristia, se deparou com o santuário arrombado, a imagem quebrada e constatou a ausência das joias. O caso foi comunicado à delegacia geral de polícia de Vitória, mas, com a informação de que os bandidos teriam fugido para o Rio de Janeiro, o delegado Fernando Rabello pediu apoio da polícia carioca. 
Em reportagem de A Gazeta de 1976 sobre memória capixaba, foram citados roubos de obras de arte e objetos históricos, entre os quais o registrado em 1925 no Convento da Penha. Daquele episódio, não foram recuperadas as peças levadas pelos criminosos. O texto de Rogério Medeiros lembrou ainda que o santuário havia sido alvo de outros dois ataques. 
O jornalista fez referência ao livro Convento da Penha, de Norbertino Bahiense, que descrevia o primeiro roubo, registrado em 1653 e que teria sido praticado por holandeses. "Atacaram o mosteiro levando o manto e a coroa da Virgem da Penha. Pegaram também a imagem do menino Jesus. Alegaram para o guardião do Convento que levariam o menino para brincar com outro existente em Recife."
Depois, é citado o caso de 1925, quando, entre outras peças, foi roubada a coroa de Nossa Senhora da Penha. A reportagem aponta que a população de Cachoeiro de Itapemirim ofereceu outra peça para substituir a que foi levada pelos bandidos, que também seria roubada anos mais tarde, em 1947. 
Reportagem de A Gazeta noticia o roubo ao Convento da Penha em 1925
Reportagem de A Gazeta em 1976  noticia o roubo ao Convento da Penha em 1925 Crédito: Reprodução
Reportagem de A Gazeta noticia o roubo ao Convento da Penha em 1925
Trecho da reportagem de A Gazeta que cita o roubo ao Convento da Penha em 1925 Crédito: Reprodução
Mas a ação de criminosos não parou por aí. Duas coroas de ouro e pedras preciosas da imagem da santa e do menino Jesus foram furtadas da Sala dos Milagres, em julho de 2007. As duas peças, segundo reportagem do g1 ES da época, somavam cerca de 200 gramas de ouro e eram cravejadas de diamantes e topázios azuis e rosas, representando as cores da bandeira do Espírito Santo. 
Ao iniciar a apuração sobre o caso de 1925, a reportagem de A Gazeta procurou o Convento da Penha e, segundo a assessoria, não havia registro do roubo em seus arquivos. Em novo contato para levantar informações sobre os demais episódios, o retorno dado foi de que não seria possível fazer a verificação devido ao período intenso de atividades pela Semana Santa e Festa da Penha.

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