Mal-assombrado? Casarão dos Cerqueira Lima foi palco de crime brutal no ES
À esquerda, Maria Cerqueira Normanha. À direita, o filho Paulo Roberto Cerqueira Normanha e a namorada dele à época, Maria Rosa SuetMontagem | Gildo Loyola | Arquivo A Gazeta
Centro de Vitória
Mal-assombrado? Casarão dos Cerqueira Lima foi palco de crime brutal no ES
Mãe e filho foram mortos asfixiados dentro do imóvel em 1996 e a investigação ficou conhecida na Justiça capixaba como "Caso Normanha". A condenação dos acusados aconteceu apenas 10 anos depois
Antiga mansão da família Cerqueira LimaCrédito: Rodrigo Gavini
Um casarão verde localizado na esquina das Ruas São Gonçalo e Muniz Freire, ao lado da antiga Assembleia Legislativa, na Cidade Alta, Centro de Vitória, parece ter feito um acordo com o tempo e com o silêncio. A data de construção é incerta: segundo os registros da prefeitura, já ultrapassou um século.
Por conta de lendas ou boatos, imóveis históricos costumam ser apontados como mal-assombrados, mas no caso desta construção há um fato comprovadamente registrado nos arquivos da Polícia Civil capixaba. Palco de um crime que chocou a sociedade capixaba em abril de 1996, o "Casarão dos Cerqueira Lima" foi cenário de um crime brutal, no qual mãe e filho foram assassinados.
Conhecido na Justiça como o "Caso Normanha", a condenação dos acusados pelo crime aconteceu 10 anos depois, em 2006. Consta na denúncia do Ministério Público Estadual que Célia Maria Cerqueira Normanha, 74 anos, e o filho dela Paulo Roberto Cerqueira Normanha, 46, estavam no casarão quando foram surpreendidos pelo advogado e homem de confiança da família, Gerivaldo Bins de Freitas, e pelo, à época, policial militar Geraldo Antônio da Piedade Elias.
O objetivo era roubar um cofre da família com US$ 600 mil e joias. Para isso, amarraram as vítimas e usaram fitas adesivas para cobrir os rostos delas. Sem conseguir respirar, mãe e filho morreram asfixiados. Os corpos foram retirados da casa com a ajuda de comparsas dos criminosos e levados para serem enterrados no município de Fundão, também na Região Metropolitana de Vitória.
À esquerda, Maria Cerqueira Normanha. À direita, o filho Paulo Roberto Cerqueira Normanha e a namorada dele à época, Maria Rosa SuetCrédito: Montagem | Gildo Loyola | Arquivo A Gazeta
No dia seguinte aos assassinatos, o advogado e o policial voltaram ao casarão para roubar o cofre. O que eles não esperavam é que não havia absolutamente nada dentro dele. Mas a "saga" não terminaria por aí.
Não satisfeito, “doutor Bins”, como era conhecido, contratou uma mulher para se passar por Célia Cerqueira. Ele treinou a estelionatária para que ela tivesse a mesma assinatura da vítima e, com isso, pudesse assinar a papelada transferindo bens e tendo acesso às contas bancárias da idosa.
Gerivaldo Bins era advogado e homem de confiança da família RomanhaCrédito: Gildo Loyola | Cedoc Rede Gazeta
Os parentes dos Normanha já desconfiavam que por trás do desaparecimento das vítimas poderia estar o advogado. Em outubro de 1996, após denúncia anônima, os corpos foram localizados pela polícia em uma estrada de Fundão.
Ainda segundo a denúncia do Ministério Público, as vítimas foram identificadas pela namorada de Paulo Roberto, Maria Rosa Suet. Após a confirmação, os corpos foram enterrados no Cemitério São Domingos, no município da Serra.
Ao tomarem conhecimento que as vítimas foram encontradas e reconhecidas, os acusados contrataram os serviços de mais de dez homens. No dia 2 de fevereiro de 1997, eles se dirigiram ao cemitério utilizando um veículo Kombi, com placa idêntica à utilizada pelo rabecão do Departamento Médico Legal (DML), e um mandado de exumação falsificado. Os criminosos violaram as sepulturas, retiraram os restos mortais e os queimaram em um lixão da Serra.
Local onde foram encontrados os corpos de Célia Maria Cerqueira Normanha, 74 anos, e o filho dela Paulo Roberto Cerqueira Normanha, 46Crédito: Gildo Loyola | Cedoc Rede Gazeta
BOATOS, CEMITÉRIO E ESCAVAÇÕES
O fato dos restos mortais dos Cerqueira Lima terem sido queimados só aumentam as histórias e o imaginário popular. Na época do crime, vizinhos costumavam falar que a casa era amaldiçoada, tudo por conta de histórias que diziam que o terreno onde está construído o casarão tinha sido um cemitério antigo de padres jesuítas.
No entanto, a arqueóloga Cristiane Machado, que realizou estudos no local entre dezembro e janeiro de 2000, desmente o boato. "Na verdade, em todo o entorno de igreja na Cidade Alta encontramos ossos, até porque não havia cemitérios antigamente. Mas no local da casa nada foi encontrado", disse.
Móveis antigos em um dos cômodos do casarãoCrédito: Rodrigo Gavini
Segundo Cristiane, a equipe que trabalhou no local tinha a esperança de encontrar um sítio arqueológico. Porém, só conchas foram achadas — e não se sabe se já estavam lá ou foram utilizadas na construção do casarão, já que na época era o material empregado porque o cimento não era usado.
Cristiane afirma que no terreno da casa foram encontrados somente fragmentos de louça e uma planta do Teatro Glória — na época, a família que teria morado lá era a proprietária do espaço. A planta estava colada em uma placa de madeira e foi descoberta no sótão.
Um fato curioso, destaca a arqueóloga, é que na época da pesquisa no terreno muitas pessoas procuravam a equipe para dizer que a casa era assombrada.
POR DENTRO DO CASARÃO
No ano de 2013, o artista plástico Júlio Tigre, especialista em fazer intervenções artísticas em residências abandonadas, recriou o interior da casa dos Normanha. O local tem sala de entrada, piso superior e sótão. A exposição "Silente" misturava um ambiente em que ficção e realidade se confundem.
Tigre usava pedras encontradas no próprio terreno para demarcar os cômodos da casa, com o auxílio de cabos de aço. "Essas pedras são de uma primeira reforma que teve aqui em 1934. A demarcação é uma proposição ficcional. Eu não tive acesso às plantas”, explicou.
A exposição abstrata levava o visitante a percorrer os ambientes da casa para que ele imaginasse o que aconteceu no dia do crime. "Essa casa tem uma história. Ela passou a existir aqui no Centro como uma lenda urbana. Dizem que é assombrada, que aparece um fantasma à noite, que tem ruídos. Muitos dizem que é uma casa maldita por causa desse crime", finaliza.
E HOJE?
Anos se passaram, mas os comentários sobre o casarão ser mal-assombrado continuam. Quer fazer uma visita? Desde 1998, quando foi vendido por herdeiros da família Cerqueira Lima, o imóvel pertence à Prefeitura de Vitória e lá funciona uma biblioteca aberta ao público.
Entre os anos de 2014 e 2016, o gabinete do prefeito funcionou no local de modo itinerante, sendo um dos locais de onde o gestor municipal despachava.
Em julho de 2016, o Casarão recebeu a Biblioteca Pública Municipal de Vitória Adelpho Poli Monjardim que segue funcionando no local sendo administrada pela Secretaria Municipal de Cultura. No segundo andar da edificação há ainda uma exposição permanente de móveis, peças da coleção pessoal do escritor, poeta, historiador e jornalista Elmo Elton, já falecido.
Antiga mansão da família Cerqueira Lima que hoje abriga a biblioteca municipal de VitóriaCrédito: Rodrigo Gavini
A biblioteca está aberta ao público de forma gratuita de segunda a sexta-feira, das 8 às 17 horas, e o espaço possui um acervo de mais de 20 mil obras (físicas) nas áreas de literatura nacional e infantil, Direito, Sociologia, Geografia, Matemática, História e Artes, entre outras.
Entre os destaques, está um espaço inteiramente voltado para a literatura produzida no Espírito Santo, com uma diversidade de autores e gêneros, uma ampla coleção de obras infantis e infanto-juvenis, além de grandes nomes da literatura nacional e internacional. Há ainda há um espaço que contempla obras em braile, garantindo acessibilidade aos portadores de deficiência visual.
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