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Vitor Graize

Artigo de Opinião

É pesquisador, produtor e coordenador do projeto Acervo Capixaba
Vitor Graize

O patrimônio audiovisual capixaba reencontra o seu público

O projeto Acervo Capixaba exibe filmes restaurados em sessão especial no Cineclube Metrópolis, na Ufes, no dia 8 de julho, às 19h
Vitor Graize
É pesquisador, produtor e coordenador do projeto Acervo Capixaba

Publicado em 04 de Julho de 2026 às 10:00

Publicado em 

04 jul 2026 às 10:00

A história do cinema no Espírito Santo é marcada por pioneirismos. O inventor Ludovico Persici, ainda na década de 1920, sonhou fabricar uma máquina filmadora e realizou algumas das primeiras imagens filmadas no Estado.


O privilégio de acessarmos, quase um século depois, as imagens de Persici deve ser creditado a uma sequência de esforços silenciosos e por vezes invisíveis, além de um trabalho altamente qualificado, que permitiu a preservação, a restauração e a difusão das cenas filmadas por nosso primeiro cineasta.


A partir do final dos anos 1940, duas décadas após a iniciativa de Persici, foi a vez do folclorista Guilherme Santos Neves, à frente da Comissão Espírito-santense de Folclore, liderar um empreendimento cinematográfico pioneiro e produzir uma coleção de nove filmes curtos que registraram manifestações da cultura popular em diversas regiões do Estado.


Os registros silenciosos “Festa de São Benedito (Serra)”, datado de 1949, e “Alardo e Ticumbi”, de 1950, são os dois títulos remanescentes da coleção. Restaurados digitalmente pelo projeto Acervo Capixaba, iniciativa de pesquisa, preservação e difusão do patrimônio audiovisual do Espírito Santo criada em 2017 pela produtora Pique-Bandeira Filmes, os filmes finalmente reencontram o público.

Ticumbi, Acervo Guilherme Santos Neves
“Alardo e Ticumbi” Acervo Guilherme Santos Neves

Três quartos de século depois de registradas pelo cinegrafista Luiz Edmundo Malizeck, podemos assistir com admiração às imagens em preto e branco da Puxada do Mastro pelo navio Palermo. Podemos ver, nas cores captadas pelo cinegrafista Vitória Busato em Conceição da Barra, os detalhes das vestimentas e as coreografias do Baile de Congo de São Benedito e acompanhar a encenação do Alardo de São Sebastião.


Os dois grupos, em plena atividade, acompanharam a realização do projeto colaborando na identificação das pessoas retratadas e gravando uma trilha sonora original que poderá acompanhar a versão restaurada do filme.


O projeto também produziu pela primeira vez um novo material de preservação em película cinematográfica doada ao Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.

Cinema novo capixaba

Influenciado pelo Cinema Novo e pela criação do Festival Brasileiro de Cinema Amador JB-Mesbla no Rio de Janeiro, surge em Vitória a partir de 1965 o movimento de cinema amador. Junto a outras iniciativas no campo das artes plásticas, da literatura e do teatro, o chamado Cinema Novo Capixaba foi capaz de introduzir a ideia de modernidade e de uma arte politicamente engajada no cenário cultural do Espírito Santo.


O movimento resultou em 11 curtas-metragens, majoritariamente de ficção, rodados em 16mm por nomes como Ramon Alvarado, Paulo Torre, Luiz Tadeu Teixeira e Antonio Carlos Neves. O mais bem-sucedido entre os filmes deste ciclo é “Veia partida”, de Antonio Carlos Neves (1944-2007), rodado no Rio de Janeiro, em 1968, baseado em um conto de Amylton de Almeida. 

Cena de "Veia-Partida", de Toninho-Neves
Cena de "Veia-Partida", de Toninho-Neves Acervo-Toninho-Neves

Foi exibido naquele ano no IV Festival JB-Mesbla e premiado pela Fotografia de Ramon Alvarado. Circulou em seguida por mostras e cineclubes do país. Em 25 de junho de 1992 teve sua última exibição conhecida, em Vitória, no Centro Cultural Carmélia Maria de Souza.


Nos últimos cinco anos, o projeto Acervo Capixaba se dedicou a reconstituir a trajetória de Antonio Carlos Neves no cinema. Além de “Veia partida”, cujo internegativo – um material intermediário usado no cinema analógico para gerar novas cópias de exibição – foi preservado pela Cinemateca Brasileira, também foi possível localizar e digitalizar trechos de duas obras que Toninho realizou como estudante na Escola de Artes Cinematográficas de Moscou (VGIK) no início dos anos 1970. 

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Os filmes “Nós viveremos como vivem os pássaros” e “A palavra final de Quincas Berro D’água”, outras duas adaptações literárias, faladas em russo, restaram incompletas na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.


Os filmes de Antonio Carlos Neves, somados à filmografia de Ramon Alvarado já digitalizada pelo projeto (disponível em www.acervocapixaba.com.br), ajudam a contar a história do ciclo de cinema amador dos anos 1960. 


Sejam as imagens do folclore registradas nas décadas de 1940 e 1950, seja o cinema engajado dos anos 1960, o relançamento dessas obras é um gesto enfático de reconhecimento da importância da preservação audiovisual e que almeja o engajamento do público na valorização do patrimônio cultural.

Sessão especial do projeto Acervo Capixaba

  • Data: 08 de julho (quarta-feira)

Local: Cine Metrópolis, Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) - Avenida Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória (ES)
19h: Apresentação do Projeto e da Pesquisa
19h45: Exibição dos filmes “Alardo e Ticumbi” (10min40seg) e “Festa de São Benedito (Serra)” (13min)
20h15: Introdução aos filmes de Antonio Carlos Neves
20h30: Exibição dos filmes “Veia Partida” (23 min.), “Nós viveremos como vivem os pássaros (incompleto)” (12 min.) e “A palavra final de Quincas Berro D'água (incompleto)” (10min.).
21h15: Debate com o público sobre os filmes e o projeto
22h: Encerramento
Entrada: gratuita

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