A violência contra as mulheres não termina quando a vida é interrompida. Infelizmente, em muitos casos, ela continua, se transforma e encontra novos meios de se manifestar. O caso de Maria Eduarda é uma dolorosa demonstração dessa realidade.
Quando uma jovem de apenas 21 anos perde a vida em um trágico acidente, o que se espera de uma sociedade minimamente comprometida com a empatia é solidariedade, respeito e acolhimento à família. No entanto, vimos algo muito diferente. Antes mesmo que seus familiares pudessem viver o luto em paz, as redes sociais foram tomadas por comentários ofensivos, julgamentos cruéis, ataques misóginos e discursos de ódio dirigidos não apenas à sua memória, mas também à sua condição de mulher.
Esse episódio nos obriga a refletir sobre um problema que vem crescendo de forma preocupante: a banalização da misoginia. Muitas vezes, ela não aparece apenas nos casos extremos de violência física ou nos feminicídios que chocam o país. Ela também se manifesta nas palavras, nos comentários, nas humilhações públicas, nas campanhas de difamação e na tentativa permanente de desumanizar mulheres.
O ambiente digital ampliou essa realidade. O ódio deixou de ser isolado para se tornar organizado, compartilhado e multiplicado em velocidade inédita. Em diversos espaços da internet, a hostilidade contra mulheres virou conteúdo, audiência e até fonte de lucro.
O resultado é devastador. O que nasce nas telas não permanece restrito a elas. Esse discurso influencia comportamentos, reforça preconceitos e fortalece uma cultura que naturaliza a violência de gênero.
O caso de Maria Eduarda revela exatamente isso. Os ataques dirigidos à sua memória não surgiram do nada. Eles fazem parte de uma engrenagem social que diariamente ensina que mulheres podem ser julgadas, constrangidas e atacadas simplesmente por existirem.
Quando uma sociedade perde a capacidade de respeitar uma mulher até mesmo depois de sua morte, estamos diante de algo muito mais profundo do que a intolerância. Estamos diante da normalização da misoginia.
Como deputada federal, tenho dedicado minha atuação à defesa incondicional das mulheres e ao enfrentamento de todas as formas de violência que insistem em limitar suas vidas, seus sonhos e sua liberdade. Essa luta inclui o ambiente digital, onde milhares de brasileiras são vítimas de perseguição, humilhação, ameaças e campanhas de ódio que causam danos reais às suas vidas.
Não podemos aceitar que a internet seja tratada como uma terra sem lei ou como um espaço onde direitos fundamentais deixam de existir.
Nenhuma plataforma está acima da legislação brasileira. Nenhum algoritmo pode servir de justificativa para a disseminação de conteúdos que promovam violência, discriminação e ataques sistemáticos contra mulheres.
A liberdade de expressão não pode ser confundida com o direito de agredir, humilhar ou desumanizar. Esse espaço deveria ser instrumento de conexão, conhecimento e oportunidades, mas, infelizmente, tem sido utilizado para disseminar ódio, preconceito, perseguição e agressões que deixam marcas profundas.
Foi com esse compromisso que apresentei propostas voltadas ao combate da violência digital de gênero, buscando responsabilizar agressores, fortalecer a proteção às vítimas e enfrentar a sensação de impunidade que ainda persiste quando os ataques acontecem nas redes e plataformas digitais.
A tecnologia deve servir para aproximar pessoas e ampliar direitos, jamais para reproduzir desigualdades ou potencializar violências históricas.
A misoginia não pode continuar sendo minimizada, relativizada ou tratada como algo secundário. Ela está na raiz de inúmeras violências que atingem mulheres e meninas todos os dias. Está presente no assédio, na violência doméstica, na violência política de gênero, na perseguição virtual, nas tentativas de silenciamento e na naturalização de discursos que desumanizam mulheres simplesmente por serem mulheres.
Por isso, a aprovação de uma legislação específica para o seu enfrentamento é uma necessidade urgente.
A história de Maria Eduarda deve servir como alerta. Sua morte já representa uma perda irreparável. Os ataques dirigidos à sua memória e à sua família representam uma segunda violência que podemos admitir e, muito menos, naturalizar.
Quando uma mulher continua sendo alvo de ódio mesmo após perder a vida, toda a sociedade precisa se perguntar que tipo de valores estamos reproduzindo.
Nenhuma democracia será plenamente justa enquanto mulheres continuam sendo tratadas como alvos legítimos de violência, dentro ou fora das redes. Respeitar as mulheres não é apenas uma pauta de direitos humanos. É uma condição indispensável para a construção de uma sociedade mais democrática, mais igualitária e mais humana.