Acontecimentos recentes trouxeram novamente ao centro do debate questões fundamentais para o presente e o futuro do turismo brasileiro. De um lado, o acidente ocorrido durante uma atividade de turismo de aventura no interior de São Paulo reacendeu discussões sobre segurança, fiscalização, qualificação profissional e responsabilidade empresarial.
De outro, a repercussão das declarações do presidente da Latam Brasil, que criticou a ausência de um planejamento estratégico consistente para o turismo nacional, provocou reações diversas, mas também expôs problemas estruturais conhecidos por quem atua no setor.
Embora distintos, os dois episódios apontam para uma mesma reflexão: o turismo brasileiro ainda enfrenta dificuldades para transformar seu enorme potencial em um modelo de desenvolvimento planejado, seguro e sustentável.
No caso do turismo de aventura, é fundamental destacar que acidentes não definem uma atividade inteira. Trata-se de um segmento que gera oportunidades econômicas, promove a valorização dos territórios e proporciona experiências transformadoras aos visitantes. No entanto, cada ocorrência reforça a necessidade de uma cultura permanente de gestão de riscos.
Em um setor baseado na confiança, a segurança deve ser entendida como requisito mínimo e não como diferencial competitivo. Investimentos em qualificação profissional, certificações, protocolos operacionais, manutenção de equipamentos e cumprimento rigoroso das normas técnicas são indispensáveis para garantir a integridade dos turistas e a sustentabilidade dos empreendimentos.
Quando a segurança falha, não apenas vidas são colocadas em risco. A imagem dos destinos é afetada, a confiança dos consumidores diminui e toda a cadeia produtiva sofre impactos que podem se estender por anos.
Paralelamente, a fala do executivo trouxe à tona uma crítica que, embora considerada dura por alguns, não representa exatamente uma novidade para os profissionais do turismo. O Brasil possui uma das maiores diversidades de atrativos do planeta. Reúne patrimônio natural, riqueza cultural, gastronomia, história e experiências capazes de atender aos mais variados perfis de visitantes.
Entretanto, potencial não se converte automaticamente em desenvolvimento. Há décadas convivemos com desafios recorrentes, como a descontinuidade das políticas públicas, a fragmentação das ações institucionais, a insuficiência de investimentos, os gargalos de infraestrutura e a ausência de estratégias permanentes que ultrapassem ciclos eleitorais e mudanças de gestão.
Essa realidade também pode ser observada no Espírito Santo. Apesar dos avanços conquistados nos últimos anos, o Estado ainda enfrenta o desafio de consolidar uma visão estratégica de longo prazo para o turismo. Possuímos uma combinação rara de atrativos: litoral, montanhas, agroturismo, patrimônio cultural, turismo de experiência, gastronomia, eventos e uma diversidade territorial que poucos estados brasileiros concentram em uma área relativamente pequena.
Contudo, ainda convivemos com dificuldades relacionadas à integração regional, à continuidade de políticas públicas, à estruturação de destinos, à qualificação de empreendedores e ao fortalecimento dos mecanismos de governança turística. Muitos municípios avançam durante determinados períodos, mas encontram obstáculos para manter projetos e estratégias ao longo do tempo.
Talvez seja justamente nesse ponto que os dois acontecimentos recentes se conectem. Tanto o acidente em uma atividade turística quanto as críticas à gestão do setor revelam consequências de uma mesma fragilidade estrutural: a ausência de planejamento contínuo.
Planejar significa antecipar riscos, estruturar destinos, fortalecer a governança, qualificar profissionais de forma responsável, integrar atores públicos e privados e construir políticas que sobrevivam às mudanças de governo. Planejar é transformar potencial em resultados concretos.
No Espírito Santo, essa reflexão é especialmente relevante. O Estado tem demonstrado crescente capacidade de desenvolver produtos turísticos competitivos e experiências autênticas. Entretanto, para alcançar novos patamares de posicionamento nacional e internacional, será necessário ampliar investimentos em inteligência turística, gestão responsável de destinos, inovação, infraestrutura e qualificação profissional.
O turismo brasileiro não necessita apenas de mais visitantes ou de novos recordes estatísticos. Necessita de mais governança, mais profissionalização e mais compromisso coletivo com a construção de um setor forte e resiliente.
Um turismo verdadeiramente desenvolvido não é aquele que cresce apenas em números. É aquele que cresce com responsabilidade, preservando vidas, fortalecendo comunidades, valorizando identidades culturais e gerando oportunidades para a população local.
O maior desafio do turismo brasileiro, e do turismo capixaba, talvez não seja descobrir seu potencial. Esse potencial já é amplamente reconhecido. O verdadeiro desafio está em transformá-lo em uma estratégia permanente de desenvolvimento responsável, capaz de gerar prosperidade, segurança, competitividade e sustentabilidade para as próximas gerações.