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Artigo de Opinião

Marcos Alencar

Conheça alguns dos primos pobres do WhatsApp

Tenho uma caixa de sapatos cheia de cartões-postais. E é sempre uma nova viagem voltar a ler os registros da alegria dos amigos em seus passeios por este mundo de Deus

Publicado em 20 de Julho de 2019 às 01:58

Publicado em 

20 jul 2019 às 01:58
Cartão-postal Crédito: Pixabay
Primo pobre do WhatsApp mensageiro, o cartão-postal e seus primos, o telegrama, a carta e o portador também marcaram época. De todos, o telegrama era o que mais se aproximava do zap pela sua velocidade. Um pouco mais lento, mas a mensagem chegava sempre no mesmo dia. A carta e os postais não tinham pressa, mas cumpriam razoavelmente o seu papel. Já o tal do portador era uma espécie de sedex humano. Levava encomendas para onde quer que um amigo gentil viajasse. E também poderia trazer da viagem algo que lhe fosse encomendado.
Vez por outra, este pombo-correio humano era vítima de sua boa vontade. Por exemplo: houve uma época em que era muito difícil encontrar bananas da terra em mercados da capital paulista. Um vizinho nosso anunciou que viajaria para aquele destino e se ofereceu aos amigos próximos (“Vou a São Paulo, quer alguma coisa pra lá?”). Era assim que a coisa funcionava.
Eram felizes os viajantes e mais felizes ainda quem precisasse de seus bons préstimos. Eis que alguém da vizinhança pediu a ele que levasse um cacho daquelas bananas para uma filha que morava por lá. O cara ia num pé-duro da Itapemirim e depois de um tantão de horas de viagem ainda teria que se deslocar até um bairro distante para fazer a pesada entrega. Pediu mil desculpas, mas negou o transporte. E então nunca mais se falaram. Hoje isso ainda acontece, mas não adianta nada ficar de mal com os Correios.
Tenho uma caixa de sapatos cheia de cartões-postais. E é sempre uma nova viagem voltar a ler os registros da alegria dos amigos em seus passeios por este mundo de Deus. Como um que recebi do saudoso amigo, o poeta Berredo de Menezes: ”Nova York ganha asas de nos levar ao coração do tempo, lá onde os amigos se escondem, à espera de descobri-los para um novo abraço” .
Milson, que viajou por mais de cem países, encontrou-se de verdade nos palcos da Big Apple: ”...ontem à noite fui ver Woody Allen tocando jazz no Michel’s. Hoje vou ver ‘Cats’, amanhã ‘Os miseráveis’. E depois Astrud Gilberto”.
Um enigma: a foto é dos Alpes, a assinatura indecifrável, apenas o texto em letras de forma dá a entender que o exausto remetente bateu pique em muitos lugares: “O turista é antes de tudo um forte.”
E, no meio de tantos outros, dou de cara com uma Mará, alegre e fagueira, se despedindo de uma temporada na Costa do Sol: “Amanhã atravesso o Gibraltar rumo ao Marrocos”. E mais não disse e nem precisava.
Antes de desembarcar desta minha caixa de postais, releio o bom humor do sempre irreverente – graças a Deus - Marcelo Osório, outro saudoso amigo, no Caminho de Santiago: “A minha peregrinação, além de ser mais fácil, pois é feita de trem e não a pé, é também é ao contrário: começa em Santiago e termina em San Sebastian”.
 
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