Há uma lição que se aprende rápido ao conduzir um comitê de diversidade dentro de uma empresa: nenhuma política antirracista se sustenta apenas no papel. Ela vive — ou morre — nas conversas do dia a dia, no modo como as pessoas se olham, se escutam e se reconhecem.
O Brasil acaba de celebrar o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, em 25 de julho, e reunimos nossas colaboradoras em torno de um símbolo que parece simples, mas carrega séculos de história: as tranças.
Para muita gente, trança é estética. Para as mulheres negras, é memória. Conta-se que, no período da escravidão, os cabelos trançados serviram para esconder sementes e desenhar rotas de fuga — mapas de liberdade tecidos no próprio corpo. Falar de tranças, portanto, é falar de ancestralidade, de resistência e de identidade. É reconhecer que aquilo que um dia tentaram apagar hoje é orgulho.
Trazer essa conversa para dentro de uma empresa de saneamento pode parecer, à primeira vista, deslocado. Não é. Uma companhia é feita de gente, e gente carrega histórias, marcas e pertencimentos.
Quando uma colaboradora vê a própria identidade valorizada no ambiente onde passa boa parte da vida, o recado é claro: aqui, você não precisa se encolher para caber.
É isso que move o Respeito Dá o Tom. Formado por colaboradores das nossas unidades na Serra, em Vila Velha e em Cariacica, o comitê existe para tirar o antirracismo do campo das intenções e colocá-lo na rotina — em rodas de conversa, em formação, em pequenos gestos que, somados, transformam a cultura de uma organização.
O 25 de julho, que no Brasil também homenageia Tereza de Benguela, líder quilombola que resistiu por mais de duas décadas, não é sobre olhar para trás com lamento. É sobre reconhecer de onde viemos para decidir, com clareza, para onde queremos ir.
Participar desse letramento permite compreender que a valorização da estética ancestral vai muito além da aparência. É reconhecer que cada trança, cada cabelo e cada traço carregam uma história e uma identidade que, por muito tempo, foi invisibilizada.
Quando uma empresa abre espaço para que essas narrativas sejam compartilhadas com respeito e orgulho, ela promove mais que diversidade, fortalece o pertencimento. E pertencimento transforma pessoas, equipes e organizações.
Talvez seja essa a maior contribuição do antirracismo em ambientes corporativos: permitir que ninguém precise deixar uma parte de si do lado de fora para ser reconhecido como profissional.
O trabalho não termina numa data no calendário. Ele continua no dia seguinte, e no outro, na paciência de quem entende que respeito não se decreta: se constrói. Um fio de cada vez.