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Renato Carlos Vieira e Anselmo Tozi

Artigo de Opinião

Renato foi diretor-geral do Hospital Adauto Botelho (2005–2010) e foi diretor-geral do Hospital Estadual de Atenção Clínica (2010–2011 e 2015–2019). Anselmo foi secretário de Estado da Saúde (2005–2010)
Renato Carlos Vieira e Anselmo Tozi

A história da saúde mental no ES merece ser contada por inteiro

Nossa principal ressalva ao documentário está na forma como essa trajetória pode ser compreendida pelo público
Renato Carlos Vieira e Anselmo Tozi
Renato foi diretor-geral do Hospital Adauto Botelho (2005–2010) e foi diretor-geral do Hospital Estadual de Atenção Clínica (2010–2011 e 2015–2019). Anselmo foi secretário de Estado da Saúde (2005–2010)

Publicado em 02 de Julho de 2026 às 15:09

Publicado em 

02 jul 2026 às 15:09

O lançamento do documentário "Adauto", no último dia 22, trouxe de volta ao debate público a história do antigo Hospital Adauto Botelho, que funcionou entre 1954 e 2010. 


Mais do que revisitar uma instituição que marcou a assistência psiquiátrica no Espírito Santo, o filme nos convida a refletir sobre uma questão essencial: a história da saúde mental no Estado só pode ser compreendida quando todas as etapas desse processo são reconhecidas.


Um dos marcos desse percurso ocorreu em 2004. Naquele momento, o então diretor-geral do Hospital Adauto Botelho, o enfermeiro José Guerino Pin, manteve a unidade classificada entre os hospitais tipo A, apesar de resistências internas e de orientações contrárias da Coordenação de Saúde Mental da Secretaria de Estado da Saúde. 

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A decisão teve custos políticos e administrativos, mas preservou condições fundamentais para que a transformação da instituição pudesse acontecer nos anos seguintes.


Escrevemos este artigo porque participamos diretamente dessa transformação. Tivemos a responsabilidade de conduzir, ao lado de uma equipe técnica altamente qualificada, uma das mais importantes mudanças da política pública de saúde mental do Espírito Santo. Justamente por termos vivido essa história, acreditamos que ela precisa ser contada por inteiro.


A transformação do Hospital Adauto Botelho no Hospital Estadual de Atenção Clínica (HEAC) não foi obra de uma única pessoa nem resultado de uma decisão isolada. Foi construída ao longo de anos, envolvendo profissionais de saúde, usuários, familiares, gestores públicos e representantes da reforma psiquiátrica, em diálogo permanente com a Política Nacional de Saúde Mental e com a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).


Esse processo de transformação foi conduzido durante os governos de Paulo Hartung, período em que a Secretaria de Estado da Saúde assumiu, com muita responsabilidade, a reestruturação da política de saúde mental. 


Houve planejamento, decisões administrativas, investimento público e o compromisso de construir um modelo de atenção mais humanizado, integrado à rede de cuidados e alinhado às diretrizes nacionais.


Também foi fruto do trabalho comprometido de uma equipe que assumiu esse desafio com coragem e responsabilidade. Ao nosso lado, tiveram papel decisivo Hugo Guangiroli e Enrielton Chaves, além de muitos outros servidores, técnicos e profissionais da saúde que dedicaram conhecimento e esforço para transformar uma estrutura historicamente marcada pelo modelo manicomial em uma rede mais humana, moderna e acolhedora.


Na mesma direção, avançamos no processo de desospitalização dos moradores do hospital. Foram implantadas duas unidades pré-lares dentro do HAB e inauguradas cinco residências terapêuticas em Cariacica, aproximando a assistência das diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental e fortalecendo a construção da Rede de Atenção Psicossocial.


Essa mudança dialogava com experiências anteriores, como a psiquiatria comunitária, que contribuiu para a criação do CAPS Moxuara, e reforçava uma compreensão importante: substituir estruturas físicas não basta. Sem mudanças nas práticas de cuidado, novas instituições podem reproduzir antigos modelos de exclusão.


A criação oficial do Hospital Estadual de Atenção Clínica, em 7 de maio de 2010, buscou responder a uma lacuna existente na rede pública. Embora a política nacional previsse o atendimento de pessoas com sofrimento mental agudo em enfermarias de hospitais gerais, essa diretriz ainda não estava plenamente implantada. O HEAC nasceu justamente como uma resposta concreta a esse desafio.


Por isso, sua criação não representou apenas uma mudança de nome. Representou uma nova concepção de cuidado, construída de forma coletiva, responsável e comprometida com uma assistência mais humana e integrada.


Nossa principal ressalva ao documentário está na forma como essa trajetória pode ser compreendida pelo público. Ao narrar a história do Adauto Botelho e do HEAC, a obra pode levar à interpretação de que essa transformação ocorreu apenas a partir de 2019. Essa leitura acaba deixando em segundo plano processos iniciados muitos anos antes, bem como o trabalho de inúmeras pessoas que contribuíram para essa mudança.

"Adauto", documentário sobre o Hosital Psiquiátrico Adauto Botelho
"Adauto", documentário sobre o Hosital Psiquiátrico Adauto Botelho Divulgação SECTI - Governo do Espírito Santo

Essa observação não diminui o mérito do documentário nem reduz a importância do debate que ele promove. Pelo contrário. Toda iniciativa que estimule a reflexão sobre a saúde mental é bem-vinda. 


Mas a memória pública precisa reconhecer que grandes transformações são construídas coletivamente, ao longo do tempo, e exigem continuidade das políticas públicas.


É importante registrar que essas mudanças não aconteceram por acaso. Foram resultado de decisões de governo, planejamento, investimento público e da confiança depositada em equipes técnicas que conduziram um processo complexo de transformação. 


Reconhecer esse percurso não significa atribuir a uma única pessoa uma obra coletiva. Significa situar corretamente os fatos históricos e dar o devido crédito aos profissionais, gestores e instituições que tornaram essa transformação possível.


A história da saúde mental no Espírito Santo foi escrita por muitas mãos. Preservar essa memória não é um exercício de vaidade. É um compromisso com a verdade, com o reconhecimento de todos que participaram dessa construção e com o respeito às pessoas que passaram a receber um cuidado mais digno e mais humano.


A história merece ser contada por inteiro.

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